A valsa dos bancos no Brasil

O tamanho RELATIVO dos bancos públicos diminui de maneira drástica entre o período final do inflacionismo (1988-1994) e o fim do governo FHC. Daí até a grande crise de 2008, a fatia das banca estatal e privada no crédito pareceu variar de acordo com as flutuações da economia. Nos períodos de crise mais grave, os bancos privados se retraíam.

Desde 2008, dada a ameaça de depressão no mundo rico, de recessão no Brasil e, como decorrência, com a virada “neodesenvolvimentista” de Lula, a parte dos estatais no estoque de crédito (total de dinheiro emprestado) só cresce.

Trata-se de uma mudança devida ao “desenvolvimentismo acidental” de Lula 2? Ou uma decorrência ainda da tentativa do governo de estimular o crescimento no curto prazo, via jorros periódicos de crédito da banca pública?

Ou tem algo mais aí?

No final dos anos Sarney (1988-90), os bancos públicos eram responsáveis por cerca de 67% do crédito. A partir de Collor e sob FHC, tal participação caiu continuamente, até a metade, a 34%, em 2001.

Sim, houve as privatizações de FHC. Ou melhor, deu-se cabo da baderna dos bancos federais e da farra dos estaduais, uma torrente de empréstimos podres, quando não corruptos, uma aberração política e econômica que custou caríssimo.

Vieram os anos de crises múltiplas de 2001 a 2003: estouro de bolha nos EUA, crise argentina, apagão elétrico, pânico da eleição de Lula, desvalorização do real, ida ao FMI. A participação relativa da banca estatal voltou a aumentar: para 37% (final de 2002) e 40% (início de 2004, segundo ano de Lula). A banca privada se retraíra.

Mas o governo Lula 1 não dava empurrões ao crédito via bancos públicos, que perderam peso relativo até pouco antes do estouro final da crise financeira americana. A participação dos estatais no total de crédito voltaria a 34% justamente no setembro horrível de 2008.

Porém, do pânico de 2008 a meados de 2009, os bancos estatais chegaram a responder por 80% do aumento do estoque de crédito. No fim de 2011, os bancos públicos tinham 43,5% dos empréstimos.

Não caiu tudo nas costas do BNDES, capitalizado com centenas de bilhões de dívida pública. “Apenas” metade do aumento da fatia da banca estatal se deveu ao bancão de desenvolvimento.

O avanço dos estatais se deveu, na maior parte, ao seu crescimento no crédito imobiliário e ao recuo relativo dos bancos privados no crédito à indústria, além de umas mordidas dos públicos no crédito à pessoa física. Em suma, pareceu se tratar de um avanço da Caixa (imobiliário), do BNDES (indústria) e do Banco do Brasil (pessoa física), progresso facilitado pela retranca dos bancos privados estrangeiros.

Além de empurrões políticos e injeções de capital nos estatais, note-se que a gestão dos bancos públicos melhorou desde FHC. A reforma do crédito imobiliário no governo Lula 1 reanimou o financiamento do setor, especialidade da Caixa.

Lembre-se, enfim, que em 2006 teve início a grande largada na concessão de empréstimos, que passaram de 26% do PIB (em 2005) a 49% do PIB de hoje. Tanto bancos públicos como privados cresceram muito, pois. Mas, no presente ritmo, a fatia estatal no bolo do crédito superaria 50% no final de Dilma 1.