Ata do Copom deve ter foco na atividade

A ata do Comitê de Política Monetária (Copom) que sai nesta manhã tem potencial para dar cara nova ou chancelar o desenho do mercado de juros futuros.

Ontem, as taxas de curto prazo negociadas na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) encerraram o dia apontando para baixo, na expectativa de que o documento venha a confirmar a ideia de que o rumo da Selic é mesmo para baixo e que ao menos mais um corte de 0,75 ponto percentual na Selic está no gatilho.

Já os contratos longos voltaram a acumular prêmio de risco. Movimento que nasceu com a piora das expectativas de inflação coletadas pelo Focus e foi reforçado conforme o governo foi a campo lutar a “guerra cambial”.

De volta à ata, a expectativa é de que o foco das justificativas do colegiado para a aceleração no ritmo de corte fique no comportamento da atividade.

Antes da decisão foi divulgado o Produto Interno Bruto (PIB) de 2011, um magro 2,7%, depois do “pibão” de 7,5% de 2011. Também foi revelado um tombo de 2,1% na produção industrial de janeiro em comparação com dezembro (muito por fatores sazonais).

Pelo lado externo, a China reduziu sua meta de crescimento de 8% para 7,5% em 2012. Nós últimos sete anos, 8% era o piso.

O “tsunami monetário” também deve estar em pauta, conforme o aumento de liquidez externa pode gerar distorções não só no câmbio, mas também no mercado de crédito local.

Além desses pontos, o economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luis Otavio de Souza Leal, acredita que o BC vai citar a questão da inflação corrente abaixo das expectativas e abaixo do que o próprio colegiado esperava.

Pelas contas de Leal, o BC tem uma “folga” de 0,4 ponto percentual sobre a projeção de inflação feita para o primeiro trimestre do ano.

Esse “bônus” de IPCA decorre do seguinte. No Relatório de Inflação de dezembro, a projeção de mercado indicava inflação em 5,9% no fim do primeiro quarto do ano. Acontece que a visão atual é de que a inflação vai fechar o período ao redor de 5,5% (sempre no acumulado em 12 meses). É dessa diferença que vem essa margem de 0,40 ponto percentual. Essa projeção fura se o IPCA de março vier na casa de 0,84%, evento de baixa probabilidade.

Uma inflação melhor do que o previsto abriria espaço para um corte maior dos juros, ainda mais com a economia ameaçando crescer abaixo do potencial pelo quinto trimestre seguido.

Segundo Leal, essa folga abriria espaço até para acomodar uma alta no preço dos combustíveis, que tem impacto estimado entre 0,40 a 0,50 ponto no IPCA.

Encerrando, o economista não acredita que o BC tenha abandonado a inflação. O que é incontestável é que a função reação da autoridade monetária é outra.

“O nível de atividade tem um peso maior do que antes. O mercado muitas vezes errou o comportamento do BC, pois tentava prever os movimentos com a cabeça do BC do Armínio Fraga, quando o peso da atividade era menor”, explica Leal.

Segundo ele, também não é possível dizer que essa postura é errada. “O momento é de exceção no mundo todo”, lembra, acrescentando que quando o BC passar a ver um risco maior para inflação, a função reação também deve se ajustar a isso. Por ora, o foco está no nível de atividade.

No mercado de câmbio, depois de uma trégua, os compradores voltaram a falar mais alto por aqui. O dólar comercial encerrou o dia com alta de 0,39%, a R$ 1,807. Mas a moeda chegou a atingir a máxima de R$ 1,825 (alta de 1,33%).

Em pauta, as atuações do governo e o medo de novas medidas cambiais. No entanto, esse evento local se soma a um período de reavaliação sobre o dólar no mundo todo.

Para um tesoureiro, a aposta no dólar é um fenômeno global. E isso decorre da melhora no ritmo de atividade da economia americana e de um Federal Reserve (Fed), banco central americano, menos propenso a tomar novas medidas de estímulo. Ou seja, o Fed não liga a impressora de dólares no curto prazo.

Essa dinâmica se reflete na relação dólar/euro, conforme a moeda comum ameaça perder, novamente, a linha de US$ 1,30.

Isso se manifesta, também, no mercado de ações dos Estados Unidos e nos títulos da dívida americana. Os índices testam máximas não vistas em muitos anos. E a taxa de retorno do Treasury de 10 anos ronda a linha de 2,28%, não é nada surpreendente, mas é a maior leitura desde o fim de outubro de 2011.