Bancos recorrem ao mercado interno

O ritmo de captações de recursos no exterior por instituições financeiras permanece lento nos últimos meses, principalmente nos bancos de pequeno e médio porte, e a perspectiva é de continuar com dificuldades até o final de 2011. O fato é consequência da instabilidade econômica mundial dos sistemas financeiros dos Estados Unidos e da Europa (Grécia, Portugal e Espanha), apontaram especialistas, o que resulta em investimentos mais seletivos, que priorizam grandes empresas, bancos e economias do primeiro mundo.

A solução encontrada para a busca de recursos tem sido o mercado interno, com emissões de Letras Financeiras, fundos de investimento em direitos creditórios (FIDC) e depósitos a prazo com garantia especial (DPGE). Segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais (Anbima), as emissões de títulos bancários somaram R$ 7,558 bilhões em letras financeiras em junho de 2011, com estoque de R$ 90,506 bilhões. Em DPGE, o total foi de R$ 1,919 bilhões, acréscimo de 176% ante junho de 2010, com estoque de R$ 23,384 milhões.

Em FIDCs, 10 ofertas foram registradas na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), sendo cinco de instituições financeiras. O caso mais recente, do Bonsucesso, exemplifica a situação desfavorável para os pequenos e médios. A instituição desistiu da captação externa de US$ 200 milhões por conta dos altos prêmios exigidos e recorreu em junho ao FIDC, com captação de R$ 200 milhões.

Outro banco de menor porte que recorreu ao FIDC foi o Cruzeiro do Sul. No início de abril, tentou vender no exterior US$ 200 milhões em bônus, mas só conseguiu US$ 150 milhões. A alternativa encontrada foi entrar com pedido na CVM para captar R$ 300 milhões com FIDC.

Segundo o analista de bancos Luiz Miguel Santacreu, da agência classificadora de risco Austin Rating, os investidores internacionais estão mais seletivos. “O mercado externo foi impactado pela crise política do Oriente Médio e as altas taxas dos EUA e da Europa. Com isso, fica mais seletivo fora do primeiro mundo, o que é contraditório com as nítidas dificuldades de alguns países.”

Santacreu também ressalta os altos preços das operações, que impulsionaram a migração para o mercado doméstico. “O custo da captação ao longo do semestre ficou mais caro e é preciso fazer as contas. Alguns bancos migraram para o mercado doméstico, que não tem risco cambial.”

O professor Marcello Gonella, da Escola de Negócios da Anhembi Morumbi, concorda com as dificuldades ocasionadas pela crise externa. “O mercado mundial está com crédito mais escasso e seletivo por causa da crise ainda latente, o que dificulta a captação de pequenos bancos e empresas. Os grandes ainda conseguem por causa dos ativos muito altos e o risco país do Brasil muito baixo”.

A emissão mais recente realizada foi do Itaú Unibanco Holding SA, em junho, de notas subordinadas no montante de US$ 500 milhões à taxa fixa de 6,20%.

Para o analista da Austin Rating, a situação deve permanecer até o final do ano. “O cenário americano e as dívidas europeias geram preocupação. Essas dúvidas têm de ser respondidas nos próximos três meses para resolver as emissões externas até o final do ano, ou vai ficar cada vez mais difícil.”