Bancos têm margem para cortar os spreads

Depois de se munir de um arsenal de informações sobre o retorno e margens de lucros dos bancos brasileiros e estrangeiros, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, bombardeou as instituições financeiras privadas que resistem em reduzir os spreads bancários (diferença entre a taxa de captação do dinheiro e a cobrada dos clientes) e destravar a concessão de empréstimos no país. O ministro convocou a imprensa para apresentar seus argumentos ontem pela manhã. Para Mantega, os bancos, devido aos elevados lucros, têm margem para cortar os spreads bancários, sem a contrapartida do governo. Ele alertou ainda que não faltará crédito no país para viabilizar o crescimento.

Nos últimos dias, o Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, pressionados pelo governo, diminuíram os juros e ampliaram o crédito ao consumidor. A expectativa era de que os privados seguissem o mesmo caminho. “A economia brasileira está bastante sólida. Os consumidores estão com vontade de consumir com mais salários, porém, está havendo a retenção do crédito por parte dos bancos”, frisou.

Ele fez ainda críticas diretas ao presidente da Febraban, Murilo Portugal, com quem tem diferenças desde que assumiu o cargo. “O Murilo Portugal ao invés de apresentar soluções, anunciando aumento de crédito, veio aqui fazer cobrança de novas medidas do governo”.

O sentimento dos técnicos do ministério também era de indignação. A avaliação que prevaleceu é que os bancos não querem negociar e que o discurso de Portugal, na última terça-feira, jogando a responsabilidade da redução dos spreads para o governo, só criou mais um impasse. A Febraban optou ontem pelo silêncio. “Os bancos (privados) querem toda hora mais segurança, mais medidas. Eles estão jogando a conta nas costas do governo”, disse ainda o ministro.

Os dados levantados às pressas pelos técnicos da área econômica e repassados ao ministro mostram que o spread bancário no país é o segundo maior do mundo (35,4 pontos percentuais), perdendo apenas para o Zimbabué (75 pontos percentuais), conforme pesquisa da Global Competitiva Report 2010-2011 feita com 137 países com base no desempenho de 2009. O menor valor foi verificado na Holanda (-0,6 ponto percentual). No que diz respeito ao retorno sobre o capital anualizado, pesquisa do Fundo Monetário Internacional (FMI) aponta que o Brasil é campeão absoluto. Em 2010, atingiu 27,3%. O segundo colocado foi o Canadá com 23,4%.

Segundo o ministro, se os bancos não tivessem uma lucratividade alta, até que se justificariam as reclamações quanto ao valor dos compulsórios e também da tributação. Mas para o ministro as instituições privadas têm margem para elevar o crédito no país, sem que o governo tenha que mexer em nada. Mantega ponderou que os bancos estão captando recursos a 9,75% ao ano e emprestando a 30%, 40%, 50% e até 80% ao ano, dependendo da linha. “Essa situação não se justifica”, destacou Mantega.

Ele ressaltou que o país tem hoje as maiores taxas de spread bancário do mundo. E argumentou que no passado essa situação até se justificaria por conta da insegurança jurídica. Agora, no entanto, com os avanços do país nos últimos anos a lei de falências e a alienação fiduciária, esse comportamento não faz sentido. Segundo o ministro, se necessário, os bancos públicos vão desempenhar o mesmo papel de 2009, acelerando o crédito mesmo no cenário de crise.

Sobre a nova rodada de redução das taxas nos bancos públicos, Mantega assegurou que as instituições “estão avaliando as necessidades do mercado” com autonomia.