BC agirá para corrigir distorções do câmbio, não para defender teto

Não há razão para o real se desvalorizar mais em relação ao dólar do que outras moedas, avalia o Banco Central. Enquanto isso estiver ocorrendo de forma alheia aos fundamentos macroeconômicos do país – retratando disfuncionalidades no mercado de câmbio – o BC continuará com as intervenções, através de leilões de swap cambial. Ontem, por exemplo, a queda do real foi de 1,66% frente ao dólar, bem superior à do dólar australiano (-0,27%), mas abaixo do rand da África do Sul (-2,17%) e do peso mexicano (-1,95%).

O BC explicou, também, que não trabalha com qualquer tipo de banda cambial. Apesar das duas primeiras intervenções terem sido disparadas quando a taxa de câmbio superou o patamar de R$ 1,90, configurando-se uma espécie de teto para a cotação do dólar, o BC não confirma essa interpretação. Como exemplo de que não opera com um teto, o BC citou o fato de ter anunciado na noite de segunda-feira que faria leilões de swap na manhã de terça, sem saber como o mercado abriria.

Nas últimas semanas, houve uma discussão na área técnica do governo sobre a adoção de uma eventual nova estratégia de política cambial. Por essa concepção, o BC não entraria no mercado enquanto o dólar estivesse cotado abaixo de R$ 1,90. A partir desse valor, o BC venderia contratos de swap cambial. Na visão desses técnicos, o dólar a R$ 1,90 não traria muita pressão sobre a inflação e daria um fôlego importante à indústria nacional, tanto para ajuda-la a exportar quando para enfrentar seus concorrentes internacionais no mercado doméstico.

“Não temos banda de câmbio. Seria uma loucura mexer com nosso regime que funciona bem, que tem servido ao País neste momento, e colocar uma banda de câmbio que tanto custo já trouxe para o país no passado”, afirmou o presidente do BC, Alexandre Tombini, em debate no Senado, em 27 de setembro. As declarações de Tombini foram feitas em resposta à pergunta da senadora Marta Suplicy (PT-SP), exatamente sobre se caberia ao BC defender uma banda.

Ontem, diante do surgimento da percepção de que estaria sim defendendo uma banda, o BC reiterou os argumentos de Tombini. Desde a decisão do Copom de cortar a taxa Selic em 0,5 ponto, no dia 31 de agosto, que a taxa de câmbio tem sido volátil, numa associação com as expectativas de aceleração (ou não) da trajetória de queda dos juros nos próximos meses.

Nesse período, ganhou força nas apostas do mercado de que os cortes, daqui por diante, seriam mais acentuados, na casa de 1 ponto, já na reunião deste mês. Com a divulgação do relatório trimestral de inflação, operadores de mercado retornaram para a expectativa de que a queda da Selic continuará no ritmo de 0,5 ponto.

Após nove meses de governo, as desconfianças do mercado sobre a condução da política monetária ainda são muitas. Esta semana, declarações de autoridades introduziram mais um elemento na discussão sobre os rumos da taxa de juros, a de que a presidente Dilma Rousseff quer que a Selic caia para 9% até o ano que vem. Em pronunciamentos, Dilma realça o crescimento econômico como o principal objetivo do governo. Mais recentemente, passou a citar a queda dos juros na esteira da crise externa como um grande desafio. Fatos que alimentam as dúvidas sobre o real compromisso da presidente com o controle da inflação.