BC começa o ano com expectativas ancoradas

O presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, começa 2012 bastante fortalecido, revertendo a desconfiança inicial do mercado. A comunicação do BC, bastante questionada desde o começo de sua gestão, sofreu um duro golpe com a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), em agosto, de cortar a Selic de maneira abrupta – sem sinalizar o movimento aos agentes. Mas a piora da crise na Europa mostrou que o cenário do BC era o correto e o mercado, desde então, passou a seguir com mais atenção os sinais da autoridade.

A prova final da ancoragem das expectativas veio com o Relatório de Inflação, no fim de dezembro. O BC soltou um documento mais conservador, contrariando até a expectativa dos investidores, e imediatamente a curva de juros – formada pelos diversos contratos de juros futuros para os diferentes vencimentos – sofreu um ajuste de alta, mostrando que o mercado está bastante afinado com a comunicação emitida pela autoridade.

Os juros futuros encerraram o último pregão de 2011 em leve queda, sem alterar essa expectativa dos investidores para os próximos passos da política monetária, construída a partir do Relatório de Inflação. A aposta dos agentes que operam no mercado de DI futuro da BM&F é de que o BC reduzirá a Selic em 1 ponto percentual neste ano, para 10% ao ano. O ritmo esperado ainda é de dois cortes de 0,5 ponto percentual, nas reuniões do Copom de janeiro e março.

Também seguindo a fala do diretor de política econômica do BC, Carlos Hamilton Araújo, de que poderia elevar os juros caso seja necessário conter pressões inflacionárias em 2012 – na apresentação do próprio relatório – a curva de juros aponta ainda a expectativa de um novo ciclo de alta de juros em 2013.

Os contratos de juros futuros com vencimento ao longo de 2013 indicam a aposta de que o BC terá que elevar a Selic em pelo menos 1 ponto percentual, para 11% ao ano, para debelar uma possível pressão de preços decorrente da recuperação da atividade econômica neste ano.

Mas nem sempre essa relação foi tão cordial. O ano passado começou sob a desconfiança do mercado se o então novo presidente do Banco Central teria força para fazer o necessário ajuste monetário para corrigir os excessos de 2010 e ainda debelar um choque de ofertas vindo do exterior – alimentos.

A adoção de medidas macroprudenciais – que no fim das contas se mostraram mais eficientes do que o próprio governo esperava, tamanha a desaceleração da economia no terceiro trimestre – em detrimento da política convencional de alta de juros única e exclusivamente também foi motivo de críticas ao BC.

Por fim, o estreitamento da relação entre a autoridade monetária e o Ministério da Fazenda – que contribuiu para a política monetária no sentido de abrir espaço fiscal para o corte de juros – também causou alguns ruídos no mercado.

O principal deles foi o discurso do ministro Guido Mantega no Congresso Nacional, em novembro, poucos dias antes da última reunião do Copom no ano passado, dizendo que a crise seria prolongada com efeitos sobre a China. O mercado entendeu as palavras do ministro como um sinal verde para o BC aprofundar o corte de juros, ampliando o ritmo “moderado” de meio ponto adotado até então.

Os investidores aumentaram as apostas nessa direção e tomados por certa euforia chegaram a precificar uma chance de 40% de um corte de 0,75 ponto percentual. Até que Tombini, em discurso na Febraban, reafirmou seu cenário de “ajustes moderados” – expressão que ficou famosa em 2011 para sinalizar o afrouxamento gradual dos juros -, confirmado na reunião do Copom da semana seguinte com novo corte de 0,5 ponto percentual, levando a Selic para 11% ao ano.

O ano termina, portanto, mostrando os agentes bastante atentos às sinalizações do Banco Central. A cena externa também atrai os olhares do mercado, pois continua sendo determinante para ditar os próximos passos da política monetária brasileira. Por aqui, as atenções dos investidores se voltam para a dinâmica inflacionária, durante a esperada recuperação da atividade ao longo do ano.

Como as incertezas são enormes, nada está garantido em nenhuma dessas frentes. Ainda há riscos de uma ruptura na Europa, que poderia levar a um quadro de recessão mundial. Ao mesmo tempo, a inflação brasileira mostra certa persistência, puxada pelo setor de serviços.

Já o dólar encerrou o ano com uma valorização acumulada de 12,18% sobre o real, encerrando o ano passado cotado a R$ 1,869 (havia fechado 2010 em R$ 1,666). A moeda brasileira foi uma das que mais perderam valor ao longo do ano passado, mesmo se comparada a divisas correlacionadas com as commodities, caso do real. Mas outras moedas também sofreram perdas no ano, com o euro, que caiu abaixo do patamar psicológico de US$ 1,30.