Brasil pode ter menor crescimento da região

A economia brasileira está deixando o papel de motor da América do Sul e voltando à incômoda condição que já não ocupava desde meados da década passada: a de lanterninha do crescimento na região. Antes mesmo do aprofundamento da crise mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou relatório em setembro no qual previa 3,6% para a expansão do Brasil em 2012, índice inferior ao de todos os seus vizinhos e igual ao da Venezuela. Se as projeções se confirmarem, será a primeira vez em sete anos que isso ocorrerá.

Com uma desaceleração mais forte do que a dos demais países sul-americanos, voltam a ganhar força as contestações sobre a capacidade do Brasil de impulsionar a economia na região. “O Brasil não é, de nenhuma maneira, o caso de um emergente que tenha se transformado em exemplo no qual se espelhar”, diz José Luis Espert, economista argentino e dono da consultoria Espert Associados.

Entre 2005 e 2010, aumentou de 29% para 50% a participação do mercado brasileiro como destino das exportações industriais da Argentina. No mesmo período, a fatia das exportações do Uruguai que têm o Brasil como destino subiu de 12,6% para 21,5%.

Espert avalia que a Argentina “tem motivos para agradecer ao Brasil”, que absorve 85% de suas vendas de automóveis ao exterior e mais de cinco a cada dez carros produzidos. “A estrela dos últimos dez anos no país foi a indústria automotiva”, afirma o economista. Ele prevê uma desaceleração da Argentina em 2012, com o PIB crescendo 4%, mas não em ritmo tão forte quanto o freio no Brasil. “É um cenário que tem 70% de chances de acontecer.”

Brasil volta a crescer menos do que os vizinhos

Na avaliação de Bernardo Wjuniski, analista-sênior para a América Latina da Medley Global Advisors, a forte redução na taxa de crescimento da economia brasileira não pode ser explicada só pela crise mundial. Para ele, por trás do tombo no avanço do PIB entre 2010, cuja alta foi de 7,5%, para taxas próximas a 3% neste e no próximo ano, está a política implementada pelo governo da presidente Dilma Rousseff. “O aperto na política monetária, com as medidas macroprudenciais de controle do crédito e a elevação de juros entre janeiro e julho, e o maior rigor fiscal, com corte no orçamento e ampliação da meta de superávit primário, tiveram efeito pleno no terceiro trimestre deste ano”, diz Wjuniski, “justamente no mesmo momento em que houve o recrudescimento da crise global”.

Para Wjuniski, a condução da política econômica, por parte do governo brasileiro, destoa completamente daquela adotada por Colômbia e Peru, que também cresceram forte em 2010. “O Brasil precisava desacelerar porque o PIB foi inflamado pela aceleração da inflação, algo que não ocorre nesses dois vizinhos”, diz Wjuniski, que vê numa política monetária mais austera uma das razões pelas quais colombianos e peruanos conseguiram combinar crescimento elevado com um razoável controle de preços.

Ao desacelerar para uma taxa próxima a 3% neste ano, e um pouco mais no ano que vem, o caso brasileiro assemelha-se àquele vivido por Chile e México, cujo avanço do PIB deve se situar entre 4% e 5% em 2011 e 2012. “Eles crescem só um pouco mais, mas com uma diferença fundamental: têm inflação controlada”.

Para José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator e professor da USP, a comparação entre a taxa de avanço do PIB dos países latino-americanos precisa ser relativizada, uma vez que “não só o tamanho, mas também a complexidade das economias na região é heterogênea”. A desaceleração brasileira, diz, não é tão “dramática”, nem a comparação com os vizinhos de crescimento mais elevado é “justa”.

“O PIB brasileiro deve crescer 3,1% neste ano”, diz Gonçalves, “mas este crescimento poderia ser de 5,1% se não tivéssemos uma perda líquida próxima a 2% do PIB em exportações, fracas especialmente devido à péssima demanda mundial num cenário de grave crise”. Ele afirma que o crescimento do país é especialmente orientado para o mercado doméstico, que terá na alta de quase 15% no salário mínimo no ano que vem um forte fator de impulsão.

“No Peru, onde o crescimento é extremamente dependente da demanda chinesa por suas exportações, uma nova planta fabril já representa um salto exponencial no PIB, que é muito pequeno”, afirma Gonçalves, que não vê com entusiasmo o futuro de economias como a mexicana e a chilena. “O Chile tenta, há décadas, diversificar sua economia, de modo a fugir da eterna dependência do cobre, mas ainda está longe de evitar que uma perda de fôlego na economia chinesa resulte num mergulho em seu crescimento”, observa Gonçalves. Já o caso mexicano é mais sensível: por ter sua corrente de comércio (a soma de exportações e importações) muito ligada aos Estados Unidos, o México dependerá de uma recuperação mais vistosa da economia americana.

“Os casos mais deteriorados da região são Argentina e Venezuela, que devem registrar um crescimento mais forte em 2012, mas estão cada vez mais próximos de sua data de validade”, preconiza Wjunisk. O especialista da Medley, que é também professor na Fundação Getulio Vargas em São Paulo (FGV-SP), vê com maus olhos o manejo da economia praticado pelos governos Kirchner e Chávez, na Argentina e Venezuela, respectivamente. “A Argentina cresce, mas tem um problema seríssimo de inflação, já rondando 35% ao ano”, diz Wjuniski, “enquanto os venezuelanos torcem para que a economia mundial se recupere, a fim de elevar os preços do petróleo, a principal riqueza do país”.

Para Gonçalves, as perspectivas ruins para a Argentina são um mau sinal para o Brasil, que têm nos vizinhos seu segundo maior parceiro comercial, atrás da China. “Quando esgotarem as possibilidades de financiamento para a Argentina, que já está próxima do limite orçamentário, nossos exportadores terão mais um problema para lidar, além do câmbio valorizado e do mercado externo com demanda estreita.”

Nas projeções divulgadas em setembro pelo FMI, no Panorama Econômico Mundial, Guiana e Peru terão os maiores crescimentos do PIB em 2012, com 6% e 5,6%, respectivamente. Na América Latina e no Caribe, a liderança fica com o Haiti (7,5%), em processo de reconstrução após o terremoto de 2010, e com o Panamá (7,2%).