Brasil tem de confirmar diferencial e ter contas bem arrumadas, diz BC

O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, avaliou nesta quarta-feira (10), durante palestra no seminário internacional sobre Justiça Fiscal, promovido pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), que a nova fase da crise financeira é uma “herança” da primeira etapa das tensões internacionais, acontecidas em 2008, quando os governos socorreram seus sistemas financeiros por meio da injeção de recursos.

Segundo Tombini, isso acabou desequilibrando as contas públicas das nações que tiveram de intervir para impedir a quebra de suas instituições financeiras. “O que vivemos hoje, na visão do BC, é uma consequência das respostas adotadas na crise financeira de 2008. Naquele momento, o choque se alastrou e repercutiu sobre toda economia global”, disse.

“A resposta foi rápida. Houve coordenação grande das economias, e o G20 tomou a frente. Mas depois veio a herança fiscal por conta dos estímulos feitos para restabelecer o crescimento da economia. Tudo isso não conseguiu restabelecer o crescimento e o legado foi uma relação dívida/PIB acrescida”, observou o presidente do BC.

Tombini citou um estudo do economista Kenneth Rogoff sobre a situação da dívida das principais economias antes e depois da primeira fase da crise financeira, que teve início com a concordata do Lehman Brothers em setembro de 2008. No caso da Grécia, por exemplo, sua dívida subiu de 105% do PIB, em 2007, para 150% do PIB neste ano. Na Irlanda, a dívida avançoiu de 25% para 114% do PIB em igual período de comparação, e, na Espanha e Itália, respectivamente, saltou de 36% para 64% do PIB; e de 100% para 120% do PIB.

Diferencial do Brasil

Sobre o Brasil, o presidente do BC disse que, após uma deterioração da relação dívida/PIB em 2009 e 2010, houve uma melhora em 2011, com o endividamento brasileiro retomando uma trajetória de queda. Atualmente, a relação dívida/PIB do Brasil está pouco abaixo de 40%.

“Temos que confirmar o nosso diferencial e ter uma situação fiscal bem arrumada. Temos conseguido restabelecer a trajetória cadente da relação dívida/PIB. Isso gera condições para que os agentes privados se financiem em condições mais longas e reflete nos prêmios [juros pagos] pelo o setor privado. Para que esse diferencial fique cada vez mais marcado na economia brasileira”, declarou o presidente do BC.

Alexandre Tombini confirmou a avaliação do ministro da Fazenda, Guido Mantega, de que a economia internacional demorará uns dois anos para se reerguer da atual fase da crise financeira, e acrescentou que o Brasil está “bem posicionado”. “Temos desafios pela frente, mas o Brasil está bem posicionado. Não podemos fraquejar. Temos de avançar. Daqui a dois anos, quando a situação melhorar, sairemos fortalecidos com as políticas adequadas”, avaliou ele.

Nesta terça-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, pediu, no plenário da Câmara dos Deputados, a colaboração dos parlamentares para impedir um crescimento dos gastos públicos em um momento de pressão por reajustes salariais para funcionários públicos. “Peço a colaboração de todos. Estaremos controlando gastos e gostaríamos que os demais poderes nos ajudassem não fazendo propostas que aumentem gastos. É importante haver sintonia entre os poderes da República, coisa que não houve nos Estados Unidos. Manter um fiscal forte é um dos anteparos contra a piora da crise”, disse ele na ocasião.

Sem descontrole inflacionário

Na palestra do presidente do Banco Central, realizada nesta quarta-feira, Tombini admitiu que a inflação, geralmente em foco, ficou em segundo plano por conta da crise externa. “O tema central no momento é o cenário internacional”, declarou ele. Mesmo assim, avaliou que a sensação de “descontrole inflacionário”, que acontecia no fim do ano passado e começo de 2011, ficou para trás em função das medidas adotadas (corte de R$ 50 bilhões no orçamento, aumento do compulsório e subida da taxa básica de juros neste ano, entre outras medidas).

“Creio que já temos resultados importantes para apresentar. A sensação de descontrole inflacionário sumiu. As perspectivas para o ano, e não é o BC que está falando, mas o mercado finaceiro, estão girando na média mensal no segundo semestre, de julho a dezembro, em 0,38% ao mês. Isso é compatível com o centro da meta [de inflação para 2011 e 2012] de 4,5%. Teremos, a partir de setembro, uma redução significativa da inflação no Brasil. É a expectativa do BC e do mercado, com uma redução de dois pontos percentuais de setembro de 2011 a abril de 2012. Estamos trabalhando em estratégia ampla para trazer a inflação para 4,5% em 2012”, afirmou ele.