Concessão para empresa desacelera

O menor ímpeto do empresariado para tomar crédito, de um lado, e a maior seletividade dos bancos, por outro, devem manter desaquecidas as operações de financiamento a pessoas jurídicas até o fim do ano. Em outubro, os dados do Banco Central (BC), dessazonalizados e deflacionados pela consultoria Tendências, mostraram queda de 2,7% nas novas concessões para empresas ante setembro.

“O que estou vendo, em novembro, é um novo mês de outubro”, afirma Fernando Freiberger, responsável pelo “corporate banking” do HSBC. O quarto trimestre do ano, tradicionalmente mais forte, portanto, tende a apresentar um desempenho inferior tanto em relação ao terceiro trimestre quanto na comparação com o quarto trimestre de 2010.

O desaquecimento da economia doméstica, a crise de dívida dos países europeus, a volatilidade do dólar e o encarecimento das linhas de comércio exterior compõem o panorama atual, no qual credores e tomadores encontram-se em compasso de espera. “As pessoas jurídicas, de forma geral, são mais sensíveis à desaceleração da economia e ao risco advindo do mercado internacional”, explica Alessandra Ribeiro, economista da Tendências.

Mas, a despeito do ambiente de maior cautela, o resultado das operações de crédito para pessoas jurídicas do sistema financeiro, em outubro, conseguiu surpreender a economista. “As concessões, na margem, vieram bem piores do que estávamos esperando”, diz.

Ricardo Simone, diretor financeiro do banco Sofisa, especializado na oferta de financiamentos a pequenas e médias empresas, lembra que houve uma deterioração do cenário externo de setembro para cá. A carteira de crédito do Sofisa, que ao longo do primeiro semestre manteve-se praticamente estável, no terceiro trimestre apresentou um crescimento expressivo nas operações para pessoas jurídicas, de 9,1%. “Mas o que percebemos, agora, é que a carteira está se estabilizando em vez de crescer tanto”, observa Simone.

De acordo com os dados do BC, a queda nas concessões de crédito para pessoas jurídicas, em outubro, foi puxada pela linha de Adiantamento de Contrato de Câmbio (ACC), cuja média diária recuou 34%, seguida dos repasses externos (-25,1%). Na contramão, modalidades mais caras e de curto prazo subiram, a exemplo da conta garantida (espécie de cheque especial das empresas), que mostrou alta de 6,4% na comparação com setembro.

Apesar de a forte valorização do dólar, em setembro, ter afetado a base de comparação nos volumes de financiamento para comércio exterior, a queda das concessões nessas linhas e o aumento dos empréstimos de curto prazo refletem, de certa forma, as turbulências externas. “As linhas de comércio exterior ficaram mais caras”, explica Freiberger, do HSBC.

As modalidades de curto prazo tampouco são baratas, porém estão isentas do efeito cambial. “O preço é menos nocivo do que a volatilidade”, diz Freiberger. “Num dia como hoje [ontem], em que o dólar flutuou 4%, a despesa de variação é muito maior que o de uma conta garantida.”

Os custos, de qualquer forma, estão mais elevados, e esse movimento, aliado ao repique de 0,2 ponto percentual no índice de inadimplência da pessoa jurídica, para 4% (o maior valor desde 2011) fez acender o sinal de alerta. “Com a desaceleração da economia, bem ou mal um pouco de inadimplência vai continuar tendo”, diz Simone, do Sofisa. “Mas a inadimplência na pessoa física, neste momento, é mais sensível do que na pessoa jurídica”, pondera.

O estímulo que o afrouxamento da taxa Selic e a reversão das medidas macroprudenciais devem dar ao varejo neste fim de ano pode, em 2012, levar algum alento às concessões para pessoas jurídicas, segundo Freiberger, do HSBC. “O ano talvez possa começar mais rápido do que normalmente ocorre por conta da diminuição dos estoques”, ressalta. Valor