Corrida para o risco privado

O desempenho fraco do mercado de ações e a perspectiva de queda da taxa básica de juros têm levado os gestores a buscar oportunidades de retorno maior em papéis de crédito privado, emitidos por empresas e bancos.

A participação de títulos de crédito privado no patrimônio dos fundos de investimento cresceu 74,4% neste ano até setembro em relação ao mesmo período de 2010, passando de R$ 254,82 bilhões para R$ 444,43 bilhões. O valor representa 23,8% do total de recursos sob gestão. A maior parte ainda está concentrada em Certificados de Depósito Bancário (CDBs), que respondem por 8,70% do patrimônio. As letras financeiras, que começaram a ser emitidas em março de 2010, apresentaram grande crescimento e já representam a segunda maior aplicação em crédito privado com participação de 5% no total da carteira dos fundos.

Diante das taxas de retorno atraentes oferecidas por títulos privados, a gestora de recursos Rio Bravo Investimentos reduziu a exposição a títulos públicos no fundo de renda fixa Rio Bravo Crédito Privado, de 37% no fim de 2010 para 31% hoje.

Cerca de 50% das aplicações do fundo em crédito privado estão concentradas em papéis de maior liquidez, como CDBs de bancos de primeira linha e operações compromissadas – em que o banco vende um papel dele ou de outra instituição para o investidor por um determinado prazo, com compromisso de recompra. Nos títulos de crédito com prazo mais longo, o diretor de renda fixa da gestora, Alexandre Fernandes, tem visto boas oportunidades em debêntures e cotas de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs).

Com a queda da liquidez no mercado, muitas empresas passaram a captar recursos no Brasil em vez de emitir um bônus lá fora. “O mercado está mais seletivo, mas há boa demanda para papéis com boa qualidade de crédito”, diz Fernandes, da Rio Bravo.

A gestora chegou a participar neste ano da oferta de debêntures da Multiplan e da Renner, além de comprar alguns papéis de empresas que atuam no segmento de infraestrutura. No ano, até 25 de novembro, a carteira de crédito privado da Rio Bravo acumulava alta de 11,01%, para variação de 10,59% do CDI.

Com a estabilidade da economia nos últimos anos, houve crescimento das ofertas de títulos de empresas. Só neste ano, o número de emissões de debêntures cresceu 19,80% em relação ao ano passado, embora o volume tenha ficado praticamente o mesmo. “O mercado amadureceu e as empresas têm conseguido colocar papéis de dívidas com prazos mais longos, hoje em torno de 5 a 7 anos”, destaca Sandra Petrovsky, superintendente de investimentos da Votorantim Asset Management. A gestora tem um fundo de cotas, o Votorantim Absolute Corp. Bonds RF Cred Priv, que compra especialmente debêntures e que acumulava ganho no ano 11,26% até 25 de novembro.

A despeito do agravamento da crise global, as taxas das novas emissões de debêntures de empresas de primeira linha têm recuado, acompanhando a queda da Selic.

Nesse cenário, a XP Investimentos aproveitou a oportunidade para realizar o lucro e vendeu papéis que tinham taxas mais altas e estavam valorizados no mercado secundário, reduzindo a exposição do fundo de renda fixa XP Investor a esses títulos de 41% para 31%. O ganho com as aplicações em debêntures foi a principal contribuição para o retorno do portfólio, de 11,59% no ano. “Temos uma gestão ativa e procuramos aproveitar as oportunidades no mercado secundário”, afirma Fausto Silva Filho, gestor de renda fixa da XP.

A liquidez desses papéis no mercado secundário também tem aumentado. Em outubro, excluindo os títulos emitidos por empresas de leasing, foram negociadas 118 séries, recorde no ano.

Neste ano, a XP também aumentou as alocações em títulos emitidos por bancos, como CDBs e letras financeiras de baixo risco de crédito. “Tínhamos parado de investir nesses papéis depois da fraude do Banco Panamericano, mas, depois de analisarmos os balanços de alguns bancos, voltamos a comprar”, diz Silva Filho.

As letras financeiras, segundo o executivo, devem ser uma opção para a substituição dos Depósitos a Prazo com Garantia Especial (DPGEs), que representam cerca de 20% do portfólio da XP. O limite para a emissão desses títulos, criados em 2009 como um instrumento de financiamento principalmente para os bancos médios, começa a ser reduzido em 20% ao ano a partir de 2012, até a deixarem de ser ofertados em 2016. “Os CDBs e letras financeiras chegam a pagar mais que os papéis emitidos por empresas de mesmo risco de crédito”, diz Silva Filho.

Por terem prazo de vencimento maior, as letras financeiras oferecem uma rentabilidade mais atrativa que a dos CDBs. Enquanto um banco médio chega a pagar 111% do CDI para uma emissão de um CDB, o retorno das letras financeiras da mesma instituição chega a variar de 112% a 113% do CDI.

Os títulos de crédito representam 80% do fundo da XP. A carteira, lançada em 2009 quando o CDI havia alcançado a mínima histórica de 8,75%, acumula patrimônio de R$ 181 milhões. “Naquela época, havia uma concorrência dos fundos DI com a poupança e decidimos lançar uma carteira que oferecesse um retorno adicional ao CDI”, diz Silva Filho, da XP.