Crise será prolongada, diz Tombini

O corte de 0,5 ponto percentual na taxa de juros, na reunião do Copom do dia 31, teve um claro objetivo: “neutralizar a desaceleração da atividade econômica decorrente da piora no quadro internacional”. O Comitê de Política Monetária calculou que se o rebaixamento geral do crescimento nas economias centrais representar para a economia brasileira 25% dos efeitos da crise de 2008/2009, isso resultaria numa perda de 1,25 ponto percentual no PIB, disse o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, ao Valor.

O desaquecimento adicional, decorrente esperada redução nos próximos meses da corrente de comércio, dos investimentos externos e do crédito, viria se sobrepor à desaceleração em curso e que será sentida com maior intensidade no segundo semestre. A inflação, que entre agosto e setembro bateu no teto da meta, começa a ceder a partir de outubro. Ele explicou que no cenário alternativo (que consta da ata do Copom), mesmo com os juros em queda e o câmbio depreciando como nos últimos dias, a projeção de inflação é mais baixa do que seria se os juros tivessem sido mantidos em 12,50%. “Não estamos apostando em catástrofe. Apostamos numa desaceleração do crescimento mundial e numa crise mais prolongada do que em 2008.”

Na entrevista ao Valor, o presidente do BC tinha em mãos tabela com as projeções de inflação e juros em mais de vinte países. Em todos, os juros reais estão negativos ou muito baixos, o que retrata a pouca ou nenhuma capacidade de reação das políticas monetárias para reanimar o nível de atividade. No Brasil, a situação é diferente: os juros são de 12% para uma inflação que está no pico de 7,23%, mas que deve cair para a casa dos 5% até abril ou maio de 2012. “Faz quem pode.”

Apesar das muitas críticas e poucos aplausos à decisão do Copom, Tombini não demonstrou qualquer dúvida. “Para aqueles que ainda não entenderam, vai haver um entendimento da nossa estratégia. Estamos num processo de moderação do crescimento, que já estava encomendado. Adiciona-se a isso uma deterioração do cenário internacional de forma importante nos últimos 40 dias. Isso nos leva a uma trajetória de inflação de queda em busca da meta”. Garantiu que não houve abandono da meta de inflação de 4,5% em 2012, que o BC não tem mais de um objetivo e que não há interferência política. “Com a presidenta Dilma Rousseff discutimos cenários”.

Tombini conta com estabilidade, e não queda, nos preços das commodities; com desaquecimento do mercado de trabalho e não desemprego; e com uma moderação no setor de serviços, que carrega uma inflação na casa dos 9%.