De 35 economistas, 25 esperam que alta da Selic vá além de julho

Mais uma vez, o mercado financeiro chega às vésperas da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de olho em pistas sobre o encontro seguinte. Para a decisão da próxima quarta-feira, os 35 economistas ouvidos pelo Valor esperam alta da Selic em 0,25 ponto percentual, para 12,50% ao ano. A dúvida é se o ciclo de aperto continua. Para a maioria – 18 analistas – ainda haverá outra dose de 0,25 ponto em agosto, levando a Selic para 12,75%. Mas há os que veem ainda mais: para sete deles, a Selic ficará em, no mínimo, 13% ao final de 2011. Apenas dez economistas acreditam que a reunião da semana que vem encerrará o ciclo de aperto monetário.

Esse placar foi traçado a partir de dois elementos novos que surgiram nas últimas duas semanas: a surpresa do IPCA de junho, que subiu 0,15%, acima das previsões; mas também da indicação dada pelo Relatório de Inflação do segundo trimestre, que trouxe à cena a ideia de que, segundo os modelos matemáticos observados pelo BC, a convergência da inflação para o centro da meta ocorre somente em 2013. Ou seja, ainda que a inflação corrente resista, existe um horizonte mais longo para que o esforço de combatê-la surta efeito.

Para Tony Volpon, da Nomura Securities, somente com uma Selic acima de 13% seria possível colocar a inflação de volta ao centro da meta de 2012, de 4,5%. Mas, para ele, que prevê apenas mais duas altas de 0,25 ponto percentual este ano, essa hipótese é politicamente improvável. “Acho que o governo fez uma opção de não fazer um ajuste brutal no começo do mandato e acho que não vai admitir um aperto mais forte agora”, diz.

A conquista de trazer a inflação para o centro da meta em 2012 exigiria uma dose maior de desaceleração do crescimento econômico – seja pelo lado fiscal, monetário ou creditício, segundo afirma Eduardo Velho, economista-chefe da Prosper Corretora. Mas os sinais no horizonte não vão nessa direção. “A regra do salário mínimo já projeta um reajuste nominal de pelo menos 13%, o que tende a pressionar custos e a demanda interna”, afirma. Por isso, Velho acredita que o BC seguirá a política gradualista do aperto monetário, o que limita uma queda da Selic no ano que vem.

Juros em alta

Existe, na verdade, risco de o BC ter de voltar a subir os juros, ao perceber que foi brando demais em sua ação. Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, diz que elevar a Selic para 12,75%, como ele prevê, será insuficiente para a conquista do centro da meta no ano que vem. E, para que possa fazê-lo em 2013, será necessário subir os juros novamente. “A tentativa pode existir, mas não acreditamos em convergência para a meta em todo o governo Dilma”, afirma. A única chance desse quadro mudar, em sua opinião, é o surgimento de um choque externo, como o de 2008, que levou a inflação para a meta “à força” em 2009.

Com um cenário ainda mais pessimista está Mauro Schneider, economista-chefe do Banif, para quem a Selic deve chegar a 13,25% em dezembro – projeção mais alta da pesquisa. Mas, ainda assim, ele acredita que somente uma crise externa colocará a inflação na rota do centro da meta. “Se não ocorrer uma nova crise externa, a convergência precisa da inflação para a meta não deverá ocorrer em 2012 e, provavelmente, nem em 2013”, alerta.

Ainda que os preços não estejam cedendo como o esperado, a atividade seja resistente sobretudo quanto ao mercado de trabalho e seja maior a incerteza quanto à evolução do cenário externo, José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator, não vê espaço para um choque de juros. Ele espera que o BC faça pelo menos mais duas elevações da Selic este ano. Uma ação muito mais forte do que essa, em sua avaliação, poderia agravar a inadimplência. “Além disso, a sinuca criada por juros e câmbio diminui a margem de atuação do BC: se eleva a Selic, o fluxo de dólar é ampliado. E a oferta de crédito também”, avalia o economista, que leva em consideração ainda o efeito recessivo ou ao menos desinflacionário do cenário externo.

Já David Beker, chefe de Economia e Estratégia do Bank of America Merrill Lynch para o Brasil, prevê apenas mais uma elevação da Selic, de 0,25 ponto – embora admita que considere que o risco de a taxa subir novamente aumentou significativamente. Em parte, isso se deve à comunicação escrita do BC (na ata do Copom), que indica que persegue a convergência da inflação em 2012. “É verdade que o cenário externo pesa a favor do controle da inflação, mas a incerteza doméstica, sobretudo quando à oferta de trabalho e aos efeitos dos reajustes salariais, impede o BC mudar seu discurso. Acredito, inclusive, que o Copom manterá o recado de aperto monetário suficientemente prolongado”, afirma. “É difícil para o BC interromper o ciclo de alta do juro em meio a projeções de inflação ainda elevadas para 2012”, diz o economista. A última pesquisa Focus apontou projeção mediana de IPCA de 5,10% no ano que vem.

Alguns analistas consideram, ainda, que o BC pode voltar a lançar mão das chamadas medidas macroprudenciais.

É o caso de Marcelo Gusmão Arnosti, gerente da Divisão de Macroeconomia da BB DTVM. Em seu cenário, de mais duas altas da Selic, de 0,25 ponto, está incorporada uma rodada adicional de medidas macroprudenciais, embora em intensidade consideravelmente inferior às tomadas em dezembro do ano passado, levando em conta o impacto sobre a relação recolhimento compulsório sobre depósitos totais. Também Carlos Thadeu Gomes Filho, economista sênior da Franklin Templeton, conta com mais medidas para conter a apreciação cambial e para intensificar o ajuste do crédito.