Disputa por pequenas empresas fica maior

As grandes instituições financeiras investem cada vez mais em crédito consignado e empréstimos para pequenas e médias empresas (middle market, na sigla em inglês), segmentos antes explorados com eficácia pelos bancos médios. O diferencial das instituições de menor porte em um cenário cada vez mais competitivo, apontam especialistas e executivos, está no atendimento mais ágil e eficaz com o foco em apenas um segmento. A alta da inadimplência em pessoa jurídica também deve auxiliar, já que os médios realizam uma análise menos criteriosa na concessão.

Os números ao final do primeiro semestre demonstram a tendência. O Banco do Brasil destaca no balanço do segundo trimestre o desempenho do consignado, com saldo de R$ 47,9 bilhões, alta de 18,4% na comparação com junho de 2010. O crescimento em pequenas e médias empresas foi de 24,8% ante junho do último ano, para R$ 131,3 bilhões. Na carteira que soma micro, pequenas e médias companhias, o Bradesco totalizou R$ 92 bilhões, salto de 26,9% nos últimos 12 meses. Já em consignado, a expansão foi de 30,9%, de R$ 12,9 bilhões para R$ 16,8 bilhões, no mesmo período.

O Itaú Unibanco também apresentou aumento nos financiamentos para MPE, de 26,2% em relação a junho de 2010, para R$ 89,7 bilhões. Em consignado, a alta chegou a 31,4% no mesmo período, para R$ 7,5 bilhões. Assim como os anteriores, o Santander cresceu na carteira de consignado, em 29,9%, para R$ 14,8 bilhões, e em MPE 27,2%, ao atingir saldo de R$ 41 bilhões. Para João Augusto Salles, economista da Lopes Filho, é natural que a concorrência intensifique no sistema bancário com a economia em crescimento. “É um perigo para os bancos médios, mas o diferencial está no foco, já que eles têm mais facilidade e rapidez ao conceder o crédito”.

Outra oportunidade que pode surgir para estas instituições financeiras é a alta dos índices de inadimplência em pessoa jurídica, em 3,8% segundo o Banco Central. “Os de grande porte fizeram um grande investimento para empréstimos para médias empresas. No entanto, serão mais seletivos e criteriosos na concessão com o aumento da inadimplência, o que abre espaço para os médios”, pontua Salles.

O Cruzeiro do Sul possui 95% das receitas em consignado, que obteve saldo total de R$ 7,216 bilhões ao final do segundo trimestre, quando a carteira de crédito somou R$ 7,580 bilhões.

Para Luis Octavio Índio da Costa, presidente do Conselho de Administração do banco, a concorrência é saudável. “Pode ser competitivo sim, até porque eles têm uma rede de distribuição maravilhosa. Mas na essência, é melhor competir com um grande banco do que com um oportunista que está naquele momento com o consignado para se justificar, porque ele estraga o mercado”.

Índio da Costa aposta na agilidade. “O grande diferencial dos bancos de consignado com relação aos grandes bancos é a flexibilidade. Ou seja, quando a pessoa chega aqui e pede um crédito ao Cruzeiro do Sul, provavelmente receberá ainda hoje na conta. Os grandes são mais engessados, porque a pessoa vai até a agência, que transfere a operação para uma centralizadora de consignado”.

O ABC Brasil (Arab Banking Corporation) aposta nos empréstimos para médias empresas, que no segundo trimestre deste ano atingiram saldo de R$ 1.712 bilhões, um crescimento de 23,4% ante igual período de 2010. Em corporate, a carteira atingiu R$ 10,522 bilhões, acréscimo de 19,7%. “Os grandes têm dado atenção maior a estes segmentos, mas tem espaço para um banco do nosso perfil. É importante que tenha vários credores, pois ninguém quer ser o único. Temos condições de ser mais ágeis e com relacionamento mais próximo do cliente”, argumenta Alexandre Sinzato, head de Relações com Investidores do ABC Brasil.

Para o final de 2011, a instituição projeta crescimento de 25% a 35% em middle e 10% a 16% em corporate, o que totaliza guidance de 12% a 18% na carteira.

Outro banco a priorizar as médias empresas é o BicBanco, que possui 60% do total das operações em empréstimos neste ramo. Entre abril, maio e junho, a modalidade capital de giro, que possui 62,7% de participação na carteira, somou R$ 8,450 bilhões, crescimento de 22,1% na comparação com o mesmo período de 2010.

Segundo Milto Bardini, vice-presidente da instituição financeira, o acirramento da concorrência não é predatória e defensável. “O BicBanco tem agilidade nas necessidades do cliente. Somos menores e temos um foco, enquanto outros têm n nichos de atuação. Também temos um relacionamento mais profundo com os clientes”.