Especialistas alertam para o perigo das compras e festas

Uma parte dos R$ 118 bilhões que engordarão os bolsos dos assalariados até o fim do ano em função do pagamento do 13º salário já está em circulação. Mas ainda há tempo para planejar melhor o direcionamento desse reforço financeiro e otimizar seu alcance para além de dezembro. Os especialistas alertam para o risco da utilização de todo o dinheiro extra apenas em festas, presentes e férias do período – principalmente quando se lembra as despesas típicas do primeiro trimestre do ano, como Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA), Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), matrículas escolares e outras, e a possibilidade de utilizar parte dessa quantia para realizar sonhos como comprar a casa própria, fazer uma viagem ou até pagar dívidas.

Para o consultor financeiro Erasmo Vieira, da Planilhar Planejamento Financeiro, o 13º salário é um dinheiro extra e deve ser usado em gastos extraordinários de final de ano, incluindo presentes e viagens – sem esquecer, claro, da necessidade de pesquisar em todos os casos. “Contudo, quem gastou errado durante 2011 tem um dinheiro extra para sair de dívidas”, observa. Cheque especial e liquidação total da fatura de cartão de crédito, segundo ele, devem ser priorizados. Para quem não tem dívidas, dá uma dica: dividir o 13º em três parcelas. A primeira para gastar no final do ano. A segunda, para gastos do início de 2012, e a terceira, para iniciar uma reserva para alcançar um objetivo futuro.

Consultores também recomendam direcionar parte do 13º salário para a realização de sonhos no futuro.

Este objetivo, aliás, pode direcionar de forma mais clara o destino da quantia suplementar a partir de um diagnóstico levando em conta as realizações de 2011 e os sonhos e desejos futuros. O balanço final, a ser feito de preferência em família, permitirá traçar objetivos mais palpáveis. A partir daí, um planejamento mais detalhado de curto (um ano), médio (até dez anos) ou longo prazo (acima de dez anos) ajudará a definir o destino da verba extra.

O primeiro passo para direcionar melhor a quantia suplementar é definir uma escala de prioridades. Para o consultor financeiro Mauro Calil, a regra é simples: quem tem dívida deve quitá-la ou reduzi-la bastante, sem fazer nova dívida para reiniciar o problema. “O normal é usar o dinheiro para dar entrada em carro, TV, geladeira”, exemplifica o especialista. O segundo passo é contabilizar detalhadamente as despesas até março, prevendo até mesmo parte dos gastos a serem realizados durante o Carnaval, separando em uma poupança o montante necessário a ser utilizado no momento devido.

“Para quem faz isso e ainda sobra alguma coisa, a verba pode e deve ser usada para engordar a ceia de Natal”, concede Calil. “Mas é importante guardar um pouco para engordar a aposentadoria.” Autor do livro A receita do bolo, no qual explica como conseguiu juntar R$ 1 milhão, Calil afirma que o uso integral do 13º para isso seria suficiente para uma aposentaria bem interessante. O cálculo é simples. Como exercício teórico, considera a aquisição de uma carteira de ações com valorização média de 15% ao ano (o índice Bovespa gira em torno de 12,75%) com reinvestimento de dividendos anuais de 3% a 5%, por 20 anos.

Mesmo o pagamento de dívidas pode esconder algumas armadilhas. Para endividados controlados, com pagamentos em dia, os problemas são menores. Mas para o tipo mais descontrolado, inadimplente e sem capacidade de honrar seus compromissos, o quadro é mais complicado e o direcionamento do 13º salário pode ser quase inútil, caso não sejam avaliadas e enfrentadas as razões que levaram ao endividamento. “Não dá para pagar dívidas com dinheiro extra. Quem tem dívidas está desequilibrado financeiramente. Mas dá para ser investidor mesmo estando endividado”, sugere o consultor Reinaldo Domingos. “Pagar dívida com dinheiro extra é colocar prego em areia.” Ele recomenda essa alternativa só se for para eliminar de vez o débito com o cheque especial ou com o cartão de crédito, reassumindo o controle e resgatando a sustentabilidade financeira.

Em qualquer caso, antes de mais nada é necessário um diagnóstico de despesas para que o interessado, com envolvimento da família, entenda o destino mensal do dinheiro e estabeleça metas de redução. Só a partir daí, combatendo as causas e não os efeitos, é que os devedores crônicos podem fazer acordos com os credores que possam ser cumpridos e tomar a decisão de guardar o 13º ou ajudar em despesas. “Pelo menos metade da segunda parcela deve ser guardada para o sonho definido em família – inclusive o de sair da inadimplência. O resto pode ajudar nos gastos do fim de ano e nas contas do começo de 2012”, diz o autor de livros como Terapia financeira, Livre-se de dívidas e Ter dinheiro não tem segredo, além de coleções infantis de educação financeira O Menino do Dinheiro.