Estímulo ao consumo esbarra na crise

O estímulo ao consumo decorrente do desmonte de parte das medidas macroprudenciais, da redução da taxa básica de juro e do alívio fiscal dado a alguns produtos esbarra na deterioração do cenário externo, podendo limitar a eficácia da atuação do governo no sistema de crédito brasileiro em 2012. As ações de estímulo só teriam o papel de evitar desaceleração mais expressiva, avaliam especialistas.

As projeções de 30 economistas consultados pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban) neste mês sugerem um quadro de relativa estabilidade para o crédito daqui para frente. “Claro que medidas são favoráveis, podem estimular a demanda, mas não são suficientes para impulsionar o crédito acima do desempenho deste ano”, afirma Jayme Alves, economista da entidade.

Os resultados de novembro, que serão apresentados hoje, devem exibir uma recuperação expressiva em relação a outubro. De acordo com a sondagem preliminar da Febraban, o saldo das operações com recursos livres pode ter registrado expansão de 1,7% em relação ao mês anterior, o dobro do observado em outubro ante setembro e um dos maiores ritmos de 2011.

Mas a recuperação guarda os efeitos da fraca base de comparação de outubro, quando a greve dos bancários pode ter contribuído para reduzir as concessões de empréstimos em agências, além de a variação cambial ter produzido impacto negativo no estoque de créditos a empresas. “Os números não indicam um recuo expressivo, mas também não apontam para uma recuperação sustentada”, observam, em relatório, os economistas da Febraban.

É difícil precisar tanto o efeito estatístico futuro do restabelecimento de parte das medidas de incentivo ao crédito como da influência exercida pela crise internacional. Marcelo Kfoury, economista-chefe do Citi, calcula que todas as medidas macroprudenciais adotadas em dezembro de 2010 surtiram impacto equivalente ao de um aumento da Selic em 0,4 ponto percentual.

“Mas não vamos ver o mesmo desempenho de 2010 porque as medidas foram parcialmente revertidas e os financiamentos de longo prazo [acima de 60 meses] foram ainda mais punidos”, lembra Wermeson França, economista da LCA. O aumento da inadimplência também tem inibido as concessões. França, no entanto, aposta em um crescimento do estoque de crédito de 19% no ano que vem, ante uma estimativa de 18,5% para fechar 2011.

O cenário, ao que tudo indica, está longe de ser considerado desapontador, até mesmo por aqueles especialistas que mantêm a previsão de desaceleração do ritmo de concessões ano que vem. Fernanda Consorte Ribeiro, economista do Santander, projeta um crescimento do estoque do sistema de 18% em 2012, ante os 19% estimados para fechar 2011. “Não tem muito com o que se preocupar com o andamento do crédito”, diz.

No panorama traçado por Fernanda, o segmento de pessoa jurídica aparece como destaque. Para 2012, ela prevê um aumento de 16,5% do saldo de crédito para empresas (0,1 ponto percentual acima da estimativa para 2011). Na pessoa física, suas projeções apontam para um crescimento de 15% no próximo ano ante 17% de alta em 2011.

A pesquisa feita pela Febraban com economistas de 30 bancos também aponta para um crescimento ligeiramente superior do crédito à pessoa jurídica (15,2%) em comparação com a pessoa física (15%), embora o desempenho de ambos, nesses patamares, indique uma velocidade de expansão inferior àquela esperada para este ano.

“Muitas empresas grandes não estão conseguindo captar lá fora e já começam a se voltar para mercado doméstico de crédito”, ressalta França, da LCA. E esse movimento, segundo ele, pode continuar em 2012. A economista do Santander lembra ainda que os investimentos para a Copa do Mundo e para a Olimpíada no Brasil precisam ser feitos a partir de 2012. “O cronograma já está atrasado e não há como escapar disso”, diz Fernanda.

A confiança dos empresários recua há seis trimestres, mas está melhor do que na crise de 2008-2009.