Governo aumenta alcance de IOF mais alto sobre empréstimos no exterior

Empréstimos são mais atingidos

Segundo o diretor-executivo da NGO Corretora de Câmbio, Sidnei Nehme, a forma como o governo está agindo pode acabar prejudicando o ingresso de capital estrangeiro de qualidade no país. Embora as ações sejam destinadas aos aplicadores que buscam o Brasil para obter ganhos de arbitragem em cima das altas taxas de juros, uma ação atrás da outra pode acabar provocando uma insegurança indesejada no mercado, avalia.

Dados do Ministério da Fazenda indicam que os países ricos são os maiores vilões da guerra cambial pelo mundo, tendo injetado nada menos que US$ 8 trilhões na economia do planeta nos últimos meses. Deste total, US$ 3,5 trilhões saíram da Europa e outros US$ 3 trilhões, dos Estados Unidos. O restante foram recursos lançados na economia mundial pelo Japão e Reino Unido.

Ontem, a medida ainda pegou o mercado em dia mais pessimista nos mercados globais. O dólar subiu frente às moedas dos principais países emergentes, mas, no Brasil, a alta foi maior. Na Austrália, o dólar subiu 0,57% e, na Coreia do Sul, avançou 0,44%, segundo a agência Bloomberg News. Já o Ibovespa, índice de referência da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), recuou 0,48%, a 66.384 pontos.

Além disso, segundo especialistas, o efeito da medida de ontem, sozinho, não será tão significativo porque as principais operações de captação no mercado internacional por companhias brasileiras têm prazo superior a cinco anos. O Itaú, por exemplo, abriu ontem uma captação de US$ 1,25 bilhão, numa operação de emissão de títulos de dez anos.

De acordo com relatório do banco de investimentos Credit Suisse divulgado ontem, o impacto maior será sobre empréstimos diretos e não sobre as emissões de títulos. Os empréstimos diretos representam 46% dos financiamentos de médio e de longo prazos, calculam os analistas do banco. Além disso, segundo o relatório, o prazo médio dos empréstimos diretos era de 3,6 anos em 2010 (último dado disponível), enquanto a média para emissões de títulos era de 7,5 anos.

As restrições às captações tendem a atingir sobretudo as empresas de porte médio, que não conseguem emissões de títulos ou empréstimos diretos de longo prazo. Para o vice-presidente de Empresas do Santander, João Consiglio, a tendência será as firmas recorrerem ao mercado interno:

– O mercado interno de crédito é vigoroso e está com custos em queda.

Em público, o governo brasileiro reafirma que não existe um piso ou teto para o dólar e que a cotação é flutuante. Mas operadores de câmbio e economistas ouvidos pelo GLOBO avaliam que, na prática, o piso informal para a moeda americana está fixado em R$ 1,70 e o teto em R$ 1,90. Sempre que o dólar caiu abaixo de R$ 1,70 ou ficou acima dos R$1,90, o governo fez intervenções no mercado de câmbio.

Já o sócio da corretora Pionner, João Medeiros, lembra que este é um momento em que as companhias brasileiras estão buscando empréstimos no exterior, com juro mais baixo do que no mercado doméstico, para ampliar sua produção, comprar equipamentos ou ampliar suas fábricas.

Com mais esta medida, o governo dificulta a entrada desse dinheiro. Quem estava negociando algum crédito de cinco anos tem que começar tudo de novo.