Governo fica mais pessimista com crise externa

O governo fez uma reunião “tensa” ontem no Palácio do Planalto. De volta dos Estados Unidos, onde se encontraram com autoridades de outros países e com empresários, a presidente Dilma Rousseff e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, avaliaram que o diagnóstico da crise financeira mundial mudou. A situação está pior do que se esperava e pode exigir a adoção de novos ajustes na política econômica. O mercado já começa a apostar que o Banco Central (BC) poderá acelerar a queda dos juros.

Dilma e Mantega retornaram pessimistas e com a expectativa de que a crise na Grécia pode ter um desfecho ainda esta semana, com consequências imprevisíveis sobre o sistema financeiro europeu e, portanto, sobre a economia mundial. A presidente conversou com presidentes de vários países e com investidores e empresários, em Nova York.

Já o ministro Mantega participou da reunião anual do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, em Washington. Conversou com ministros das Finanças e banqueiros centrais. Durante a semana passada, Dilma e Mantega trocaram telefonemas e por tudo o que ouviram de interlocutores qualificados não descartam a oficialização de uma moratória na Grécia ainda esta semana.

“Algo deve acontecer. A Grécia está por poucos dias”, disse uma alta fonte oficial. O governo brasileiro “está a postos” para agir e, se necessário, adotará medidas conforme o desenrolar da crise na Zona do Euro e suas consequências sobre o sistema financeiro europeu, assegurou a fonte.

Até a semana passada, a expectativa do governo era que haveria um agravamento da crise lá fora, mas sem ruptura, como a que ocorreu em meados de setembro de 2008, quando o banco americano Lehman Brothers quebrou. A nova rodada da crise confirmaria o desaquecimento na economia mundial, refletindo-se numa contração adicional àquela que a economia brasileira já vem enfrentando, mas com os mercados funcionando normalmente.

Foi com base nesse cenário que o governo decidiu aumentar o superávit primário das contas públicas em R$ 10 bilhões (0,25% do PIB) em 2011 e comprometer-se com o cumprimento de meta cheia de superávit também entre 2012 e 2014. Foi também com base nesse cenário que o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu, no fim de agosto, a taxa básica de juros (Selic), de 12,5% para 12% ao ano, num movimento que surpreendeu o mercado.

Hoje, segundo avaliações colhidas em Washington, a realidade se mostra mais grave, o que pode obrigar o governo a adotar novas medidas. Por enquanto, não se definiu ainda o que será feito, mas Brasília se colocou em estado de alerta. No mercado, já se fala que o Copom poderá reduzir a Selic, na reunião de 19 de outubro em 0,75 ponto percentual ou até mesmo em 1 ponto.

Na ata da última reunião, o Comitê sinalizou corte de 0,5% ponto percentual dos juros em outubro. A piora do cenário internacional está levando o mercado a apostar, no entanto, num movimento mais forte por parte do Copom. Hoje, o presidente do BC, Alexandre Tombini, falará à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. Seu depoimento é aguardado porque ele deve indicar como está vendo a situação mundial e sinalizar futuras ações do BC.

Tombini retornou de Washington com a certeza renovada de que não errou no diagnóstico que levou o Copom a cortar a taxa Selic em 0,5 ponto percentual. Ao contrário, as conversas das autoridades monetárias internacionais e altos representantes do mundo das finanças, no fim de semana, só aumentaram o pessimismo sobre o futuro da crise na Zona do Euro e sobre o fraco dinamismo da economia americana.

Essa impressão foi reforçada ontem pela decisão do presidente do banco central de Israel, Stanley Fischer, de reduzir a taxa de juros de 3,25% para 3% ao ano, mesmo diante do fato de a inflação do país estar acima da meta oficial – 3,4% em 12 meses, face à meta de 1% a 3%. A medida surpreendeu analistas em todo o mundo, mas, nas reuniões do fim de semana em Washington, Fischer, um ex-dirigente do FMI considerado ortodoxo, teria relativizado a preocupação com a alta inflacionária neste momento.

“Isso mostra o quão preocupados estão os banqueiros centrais com o que eles ouviram em Washington. Fischer alegou que no ano que vem pode ocorrer deflação e não inflação. Ele deixou claro, nos debates, que a questão da inflação neste momento é irrelevante”, revelou ao Valor um participante dos encontros na capital americana.

No caso brasileiro, prossegue a convicção do BC de que a inflação em 12 meses cairá dois pontos percentuais entre outubro deste ano e abril do ano que vem, ficando mais próxima da meta de 4,5%. O quadro, no entanto, é incerto para se vislumbrar o que vai ocorrer após esse período.