Indicadores industriais de junho apontam atividade mais fraca

Duas pesquisas com empresários feitas em junho reforçaram a percepção de desaceleração da atividade na indústria no segundo trimestre, indicando que a recuperação esboçada pelo setor no início do ano foi um movimento pontual. O Índice de Confiança da Indústria (ICI) recuou pela sexta vez seguida no mês passado, caindo 2,5% em relação a maio, passando de 109,9 para 107,1 pontos, feito o ajuste sazonal, de acordo com a Sondagem da Indústria da Transformação da Fundação Getulio Vargas (FGV). A retração foi puxada pelo Índice de Situação Atual, que caiu de 111,6 pontos em maio para 107,7 pontos no mês atual. Aumentou a fatia das empresas que pretendem demitir nos próximos três meses, ao mesmo tempo em que diminuiu as que planejam contratar no período.

Já o Índice de Gerentes de Compras (PMI, na sigla em inglês) do HSBC caiu de 50,8 pontos em maio para 49 pontos no mês passado, também na série livre de influências sazonais. Foi a primeira vez, desde novembro de 2010, que o indicador ficou abaixo de 50, o que sugere retração na atividade industrial. Quando o número fica acima de 50, a leitura é de alta.

O economista Aloisio Campelo, coordenador de sondagens conjunturais da FGV, chama atenção para o fato de que a queda na confiança da indústria foi generalizada em junho. Dos 14 setores consultados, 11 registraram recuo na confiança, dois estabilidade e apenas um alta. “O espalhamento denota a desaceleração sentida na indústria como um todo.”

Para ele, a retração da demanda interna, após a adoção das medidas macroprudenciais para controlar o crédito, e o aumento da taxa de juros básica podem ter afetado a confiança das empresas no futuro e piorado sua percepção sobre o momento atual. As empresas, segundo Campelo, também estão com maior dificuldade para reajustar os preços, o que acaba por reduzir a margem de lucro das companhias.

“Os preços estão cedendo um pouco, o que, somado a um período maior de vendas um pouco mais fracas, fez com que a indústria perdesse a confiança num ritmo mais forte do que nos meses anteriores”, disse Campelo.

Na leitura de junho do Índice de Preços Geral-Mercado (IGP-M), divulgado anteontem pela FGV, todos os estágios de produtos industriais tiveram deflação, com queda de 0,5% em bens finais, 0,47% em matérias-primas brutas e 0,39% em bens intermediários.

Segundo o economista da FGV, a redução da demanda interna acabou por afetar também as perspectivas do empresariado para os próximos seis meses e a pretensão da indústria em relação ao emprego. O Índice de Expectativas teve seu quarto recuo consecutivo ao atingir 106,5 pontos em junho.

Das 1.146 empresas consultadas pela pesquisa, 30,2% afirmaram pretender aumentar seu quadro de funcionários nos próximos três meses, abaixo dos 32,8% apurados no mês anterior. O número de empresas com planos de demitir, por outro lado, aumentou: essa parcela ficou em 11,3% no atual mês, contra 10,1% em maio. Em janeiro, os empresários que pretendiam dispensar empregados eram apenas 4,5% do total.

Os dados de emprego industrial chamaram a atenção de Thovan Tucakov, da LCA Consultores. “Esses números vão ao encontro do que já observamos no Caged: uma redução no ritmo de contratação da indústria”. Segundo o Ministério do Trabalho, nos primeiros cinco meses do ano a indústria criou 221.367 vagas formais, número 37% inferior aos 349.663 postos concentrados no setor no mesmo período de 2010.

O analista acredita que as consecutivas quedas no otimismo do empresariado irão resultar em menos produção industrial. Para a Pesquisa Industrial Mensal (PIM) de maio, a ser divulgada hoje, Tucakov prevê um crescimento de 0,8% da produção nacional. Para 2011, a LCA projeta que a indústria crescerá 3%.

O nível de utilização de capacidade da indústria de junho ficou em 84,3%, feito o ajuste sazonal. Houve uma pequena queda em relação aos 84,4% registrados em abril e maio, um nível que não causa grandes preocupações. Em outubro de 2010, o nível de utilização de capacidade instalada chegou a 85,2%.

Já o relatório do PMI, do HSBC, mostrou que “os fabricantes brasileiros relataram um nível mais baixo de produção em junho, encerrando assim o período de crescimento da produção que começou em novembro passado.” A pesquisa captou queda do volume de novos pedidos, “com as empresas citando os mercados mais fracos e a intensificação nas pressões por parte dos concorrentes”.

Segundo o economista-chefe do HSBC, André Loes, “os componentes do índice corroboram o cenário de desaceleração generalizada, uma vez que os índices de produção, novos pedidos e emprego caíram abaixo de 50 pontos em junho”. Ele observa ainda que “a alta de preços de insumos e de bens finais foi menos intensa que nos meses anteriores, mas os preços permanecem em trajetória de alta.”

As empresas consultadas também relataram um acúmulo marginal nos estoques de bens finais, além de informarem ter diminuído o volume de insumos adquiridos, por conta de necessidades menores para produção. Nesse cenário, os estoques de insumos também recuaram.

O PMI é um termômetro da atividade industrial, baseado em pesquisa com mais de 400 executivos, que respondem sobre itens como produção, encomendas, emprego, pedidos de exportação, estoques e preços de bens finais e de insumos.