Investimento direto no semestre bate recorde

O fluxo de recursos para o país continua sem trégua, mesmo com o aprofundamento da crise na Europa e a indefinição em relação ao teto da dívida pública americana.

O investimento estrangeiro direto (IED) atingiu US$ 32,477 bilhões no primeiro semestre, o maior valor da série histórica iniciada em 1947, o que representou um aumento de 168% sobre o mesmo período do ano passado (US$ 12,096 bilhões). Foi, assim, suficiente para mais do que cobrir o déficit em transações correntes do país, de US$ 25,448 bilhões nos seis primeiros meses do ano.

Em doze meses até junho, o investimento somou US$ 68,8 bilhões, também o maior da série. Como proporção do PIB, o valor é de 3,1%, só inferior a fevereiro de 2003 (3,2%), segundo dados do Banco Central (BC).

Balanço de Pagamentos

Em julho, até ontem, outros US$ 3,6 bilhões já entraram no país via IED e a expectativa do BC é que até o fim do mês o montante suba para US$ 4 bilhões. Caso a previsão se confirme, o fluxo acumulado em doze meses atingirá o patamar recorde de US$ 70 bilhões.

Segundo informações do mercado, investidores vêm concentrando suas aplicações em IED como forma de evitar o aumento do IOF desde o fim do ano passado. O fluxo de recursos para aplicações em papéis domésticos e em ações, que no primeiro semestre do ano passado somou US$ 19,042 bilhões, praticamente sumiu. Nos seis primeiros meses do ano chegou a meros US$ 3,022 bilhões.

Do total de investimentos, 28% corresponderam a operações superiores a R$ 1 bilhão. Outros 33,6% são oriundos de transações entre US$ 100 milhões e R$ 1 bilhão. Segundo Tulio Maciel, chefe do Departamento Econômico (Depec) do BC, a autoridade monetária acompanha as operações e não vê irregularidades.

O Ministério da Fazenda já levantou suspeitas de que parte do ingresso sob registro de investimento direto poderia estar sendo de fato, para operações de curto prazo no mercado financeiro. O BC discorda. “São operações muito vultosas, que podem ser acompanhadas por nossas equipes. Até onde nossas estatísticas permitem avaliar não vemos nenhuma irregularidades. O IED está dentro de uma trajetória prevista para o ano”, afirmou Tulio Maciel.

A migração dos recursos para IED, isento de IOF, levou o mercado a reestimar suas projeções para o volume do ano de US$ 40 bilhões para US$ 60 bilhões até o fim do ano. O BC promove revisões trimestrais e ainda mantém a expectativa de um fluxo de US$ 55 bilhões. “O BC não considera no seu cenário principal, para as projeções para o ano, um calote tanto nos Estados Unidos quanto na Europa”, disse Maciel.

O fluxo é bastante diversificado, mas o setor de serviços é o que mais recebeu recursos (telecomunicações, elétrico e comércio), mais da metade dos US$ 32 bilhões que entraram no semestre. A agricultura e o segmento de indústrias metalúrgicas e de produtos minerais não-metálicos vêm na sequência.

Até o momento, o BC não identificou nenhum sinal de mudança na tendência da economia brasileira de atrair recursos, mesmo com o cenário externo mais turbulento. “Não temos observado movimentos de retorno de capitais”, disse o chefe do Depec.

A saída mais expressiva de recursos ocorreu nas remessas de lucros e dividendos, de US$ 18,768 bilhões no ano até junho. Esse também foi um volume recorde para o semestre, com alta de 25% sobre mesmo período de 2010. Maciel atribuiu essa evolução “à rentabilidade das multinacionais” no Brasil pois, mesmo com a atividade tendo desacelerado em relação ao ano passado, “a economia brasileira continua em crescimento”. Ele lembra ainda que as multinacionais tendem a “suprir” com suas remessas os caixas de suas matrizes ainda atingidos pelas dificuldades geradas com a crise financeira de 2008.

As transações correntes do país com o exterior atingiram o maior déficit para o primeiro semestre, de US$ 25,448 bilhões.