Juros de emergentes começam a cair

O Banco Central (BC) brasileiro inaugurou a temporada de queda da taxa básica de juros entre os emergentes, e agora as indicações das taxas de juros de mercado em diversos países são de que o bloco dos demais BCs vem atrás.

Apenas Israel efetivamente cortou a taxa básica até agora, mas, desde meados de junho, as taxas de juros de mercado de diversas nações emergentes, ou de países ricos fortes em commodities, vêm caindo, antecipando cortes das taxas básicas pelos BCs. Depois da redução pelo Banco Central brasileiro, no final de agosto, o movimento se acentuou.

Para economistas ouvidos pelo Estado, isso é um sinal de que de fato a crise nos principais países desenvolvidos deve levar a uma desaceleração global, atingindo os emergentes. A fase de descolamento ficou para trás.

“A minha visão hoje é de que os bancos centrais do mundo inteiro vão cortar juros”, diz Edward Amadeo, da gestora de recursos Gávea Investimentos.

No final desta semana, as taxas de juros de mercado de um ano sinalizavam que, até março de 2012, haverá quedas de 0,25 a 1,5 ponto porcentual nas taxas básicas fixadas pelos Bancos Centrais de Austrália, Canadá, África do Sul, México e Chile (ver gráfico). No início de junho, a mesma sinalização dos juros de 360 dias indicava alta dos juros básicos no Canadá, África do Sul, México e Chile.

Mesmo pertencendo ao clube dos ricos, o Canadá e a Austrália, como exportadores de commodities, tiveram um desempenho econômico desde a crise financeira de 2008 e 2009 melhor do que o do núcleo do mundo desenvolvido.

Para Amadeo, a queda das taxas de juros de mercado nos países emergentes e produtores de commodities significa uma antecipação de que a atual desaceleração dos países ricos centrais pode se transformar em recessão. Ele nota que, na Europa, é muito provável uma queda de Produto Interno Bruto (PIB) no último trimestre deste ano ou no primeiro do próximo.

Reflexo nos emergentes. A nova freada dos ricos, por sua vez, começa a reverberar nos emergentes, atingindo primeiro as bolsas e agora os juros, que caem antecipando uma desaceleração. Nessa ótica, diz Amadeo, o surpreendente corte da Selic, a taxa básica brasileira, em 31 de agosto, antecipou de fato uma tendência que se revelou verdadeira.

O economista, porém, ressalva os aspectos controversos da decisão do Banco Central. Para ele, a comunicação não foi boa, e a inflação ainda está alta. Na sexta-feira, foi divulgado o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de setembro, de 0,53%, o que significa uma inflação acumulada em 12 meses de 7,31%.

Amadeo nota que a inflação de serviços em particular, que é bastante rígida, está muito elevada. O índice já chega a 9,04% no acumulado de 12 meses até setembro. Ainda assim, ele considera que “talvez o timing do Banco Central tenha sido desnecessariamente antecipado, mas é claro que a direção faz sentido”.

Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, acha que a situação de vários países emergentes e produtores de commodities com expectativa de queda dos juros básicos é diferente do Brasil. “Muitos desses países estão olhando para quedas sensíveis de inflação no seu horizonte”, diz Schwartsman.

Ele observa que os BCs, de maneira geral, não cortaram a taxa básica quando o mercado começou a sinalizar queda. “Eles estão controlando as expectativas e trazendo a inflação para baixo, enquanto o BC no Brasil não controlou as expectativas e a inflação aqui não tem a menor cara de que vai convergir para a meta”, critica o ex-diretor do Banco Central.

Na visão do economista Livio Ribeiro, da gestora JGP, a crise internacional é o fator comum no movimento de queda das taxas de juros observado em vários países, mas a maneira como cada um deles é afetado por essa dinâmica difere (leia texto abaixo).