Mantega diz que há desconfiança do mercado diante da crise fiscal

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou nesta segunda-feira (8) que a queda nas bolsas de valores em todo o mundo é motivada pela desconfiança do mercado em relação à postura dos países desenvolvidos diante da crise fiscal. Para o ministro, falta liderança na resolução dos problemas econômicos para acabar com a “sangria” nas bolsas.

“Há um desconfiança dos mercados em relação à condução dos problemas pelos países avançados”, disse Mantega, após participar da reunião de coordenação política no Palácio do Planalto, em que foram discutidos os impactos da crise nos países avançados.

Os mercados mundiais operam em baixa nesta segunda-feira, no primeiro dia de negociações após o rebaixamento da nota de crédito dos Estados Unidos, até então considerado o melhor pagador do mundo entre os muitos países que emitem papéis para vender e pegar dinheiro emprestado.

Na avaliação do ministro, a crise “piorou” e os países avançados não devem se recuperar “tão brevemente”.

“Os europeus têm que se apressar, parar de bater cabeça. Eles estão batendo cabeça, cada um quer uma solução e não se resolvem a dar uma solução mais forte para a questão das dívidas européias. E aí o problema vai se agudizando”, avaliou o ministro da Fazenda.

Mantega afirmou que o Brasil “não está imune” à crise econômica mundial, mas está preparado.

“O perigo não é aqui no Brasil. O Brasil não está no epicentro, mas sofremos os impactos. O Brasil é um dos melhores posicionados. Está preparado, mas não está imune. Temos uma grande vantagem em relação aos outros países que é um mercado interno forte, uma demanda forte e temos que garantir que essa demanda seja usada para os produtos e para as empresas brasileiras”, disse o ministro.

A agência de avaliação de risco S&P reduziu na sexta-feira a nota da dívida pública dos Estados Unidos, algo inédito na história. A qualificação do crédito americano de longo prazo passou da nota máxima “AAA” para “AA+”, diante da crescente dívida e do pesado déficit no orçamento. O Brasil é um dos países que mais detêm títulos da dívida dos Estados Unidos, com quase US$ 200 bilhões em papeis.do no mercado financeiro.

Apesar de os Estados Unidos terem tido a avaliação de seus papéis rebaixada, Mantega disse confiar na “solidez da moeda americana”. Para o ministro, os países ricos precisam impulsionar suas economias para evitar a queda das bolsas, o que segundo ele, gera uma “sensação de perda” e um risco de redução no consumo e recessão.

Segundo ele, é importante que os países emergentes como o Brasil fortaleçam sua situação fiscal para afastar efeitos indesejados da crise.

Mantega afirmou que, se a crise internacional se mantiver no patamar atual, não deve haver impacto negativo nos indicadores brasileiros,como crescimento e inflação.

“Nos países avançados a crise nunca terminou. A crise muda de face. Hoje, ela está em algo como 2.2 na escala Richter. Em 2008, chegamos a 8.8 na escala Richter. Ela pode não ir a diante. Espero que ela não vá adiante. Se ela não for adiante temos condições de manter todas as variáveis econômicas, crescimento, inflação sob controle”, disse o ministro fazendo referência à escala que mede a força de terremotos.

Mantega não quis adiantar quais mecanismos o governo estuda adotar em caso de agravamento da crise. Ele afirmou que o governo continuará a tomar medidas para fortalecer a economia, como o plano de apoio às micro e pequenas empresas que será lançado pelo governo federal nesta terça-feira (9).

“Se houver uma piora, uma deterioração evidentemente temos que avaliar o quadro, mas estaremos reagindo de modo a não nos deixar atingir ou que sejamos atingidos o mínimo possível. Eu preciso estar diante do problema para dar a solução”, disse Mantega.

“Armamento não falta. Haverá conseqüências porém elas serão minimizadas aqui. Eu não quero me antecipar, porque pode ser que tudo isso acabe esta semana ou não haja um agravamento nos próximos dias e os mercados melhorem. O mercado depende muito da confiança restabelecida”, continuou o ministro.

Política fiscal

O ministro reforçou a decisão do governo de assumir uma política fiscal de austeridade e mandou um recado ao funcionalismo público.

“Pedir aumento de salário não adianta. Temos que zelar para que haja um bom resultado fiscal. Não estaremos admitindo aumentos de gastos neste momento de qualquer natureza. Nenhum tipo de gasto. Isso é muito importante neste momento e é um das coisas que nos distingue dos outros países”, disse.