Medidas criam estímulo só de curto prazo, dizem economistas

As medidas anunciadas ontem pelo governo federal para fortalecer a indústria e reanimar o nível de atividade do País podem gerar algum estímulo de curto prazo, mas seria mais recomendável medidas com efeitos duradouros na economia, como redução da carga tributária, além de maior eficiência do Poder Executivo para ampliar os investimentos públicos e os recursos para educação básica e qualificação profissional. A afirmação é do professor da PUC-RJ e economista-chefe da Opus Gestão de Recursos, José Márcio Camargo.

Opinião semelhante tem a consultoria Rosenberg & Associados, que vê as medidas como paliativas, suficientes apenas para dar fôlego à produção no curto prazo. Acho que não são elas que vão resolver os problemas estruturais da indústria. Elas são paliativas. Tirando a desoneração da folha de pagamento, todas têm prazo de validade, todas são pontuais, e direcionadas a alguns setores, disse Rafael Bistafa, economista da Rosenberg & Associados.

Na avaliação da consultoria, as medidas são boas e podem melhorar as próximas leituras da Pesquisa Industrial Mensal, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mas não resolvem no longo prazo. Não quer dizer que a situação da indústria de falta de competitividade seja resolvida. Ainda tem todo o custo Brasil, que precisa ser enfrentado, completou Bistafa.

A Rosenberg espera que a produção da indústria encerre o primeiro trimestre de 2012 com um resultado fraco. Mas, no segundo semestre, deve haver recuperação, motivada pela queda na taxa básica de juros, e pelas desonerações da folha de pagamento.

Desoneração. Camargo é favorável à desoneração da folha de pagamento, mas, na atual conjuntura de baixo nível de desemprego, ele acredita que a medida pode acabar sendo desfavorável. Segundo ele, a desoneração da folha pode estimular a contratação de funcionários, o que, num mercado de trabalho apertado, tende a aumentar os salários e pressionar a inflação para cima.

O professor pondera que será muito difícil para o governo desonerar as exportações. Segundo ele, boa parte dos custos vem de matérias-primas e insumos intermediários, cuja redução de impostos na cadeia produtiva é muito difícil de ser realizada.

Para Camargo, seria muito mais eficiente para a economia no longo prazo reduzir a carga tributária de cerca de 32% do Produto Interno Bruto (PIB), o que estimularia de forma mais rápida os investimentos das empresas. Além disso, ele ressalta que seria importante a adoção de mudanças na legislação trabalhista.

Camargo tem dúvida se os empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), especialmente para grandes empresas, estimulam novos investimentos. Seria melhor que boa parte de todo esse capital que o Tesouro liberou para emprestar a grandes empresas, em algumas condições com juros reais negativos, fosse aplicada na ampliação da educação básica da população.

Impacto. Na opinião do economista-chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges, o pedido feito pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, para que os parlamentares aprovem a Resolução 72, e a ampliação de diversas linhas de crédito voltadas ao investimento das empresas são, entre todas as medidas de incentivo ao setor produtivo anunciadas pelo governo, as que podem ter impacto imediato.

Borges entende que é de suma importância acabar com a chamada Guerra dos Portos, que consiste em governos estaduais concederem incentivos fiscais a produtos importados. Trata-se de uma medida de defesa e não de proteção. Segundo ele, as demais medidas, como as desonerações, são importantes, mas de efeitos para médio e longo prazos, no período de dois ou três anos.