Mercado deixa para trás Selic de um dígito

Está cada vez mais difícil ter convicções nos dias atuais. Quando parecia que o mercado estava em sintonia com o Banco Central (BC) e caminhava para um juro nominal de um dígito no próximo ano, eis que o BC resolver tumultuar o meio de campo e soltar um Relatório de Inflação mais conservador, sinalizando uma piora para a inflação em 2013, com possibilidade de um aperto monetário já no próximo ano. Os investidores reagiram de imediato e começaram a corrigir os contratos de juros futuros. E no pregão de ontem (26/12) eliminaram por completo as apostas em uma Selic abaixo de 10% em 2012.

Mesmo em dia de baixa liquidez, os investidores aproveitaram para continuar o ajuste de alta nos juros futuros. As taxas dos contratos para o fim do próximo ano subiram de maneira acentuada, reforçando a visão de que o Banco Central não terá espaço para derrubar a Selic abaixo do piso de 10% ao ano em 2012. Hoje a taxa básica está em 11% ao ano.

Essa nova tese do mercado ganhou força na semana passada, com a publicação do Relatório Trimestral de Inflação, que mostrou uma inflação menos comportada em 2013 e a possibilidade levantada pelo diretor de política econômica, Carlos Hamilton Araújo, de alta dos juros, caso necessário. Os dados de desemprego abaixo do esperado também contribuíram para esse movimento de maior preocupação com a dinâmica inflacionária.

Como resultado, os agentes vêm elevando os contratos de juros futuros desde então e na sexta-feira, no dia seguinte à divulgação do documento, a taxa de um ano (swap 360) já havia superado a linha de 10% ao ano, atingindo 10,04% ao ano, valor mais elevado desde o início de novembro.

A alta está mais concentrada nos juros futuros com vencimento a partir do segundo semestre de 2012. E o movimento ganhou mais força ontem, com um grande banco acentuando as apostas nessa direção.

O contrato de DI futuro com vencimento em julho de 2012, por exemplo, subiu de 10,16%, no fechamento do pregão de sexta-feira (23/12), para 10,24% ontem.

Esse contrato tem servido de referência para indicar quantos cortes da Selic estão na conta do mercado. A taxa do fechamento de ontem indica apenas mais duas reduções dos juros, de 0,5 ponto percentual, o que levaria a Selic para 10% ao ano.

O contrato para outubro de 2012 passou de 10,08% para 10,19%. Já o fechamento do próximo ano, o DI para janeiro de 2013, pulou de 10,06% para 10,18%, já sinalizando apostas em um ciclo de aperto monetário com início em 2013.

Um reflexo imediato dessa nova orientação dos investidores é a alta da taxa de juro de um ano (medida pelas operações de swap entre o DI e a taxa pré-fixada de 360 dias). Essa taxa subiu de 9,69% no fim do mês passado para 10,17% no fechamento de ontem.

Essa é uma medida importante, pois a taxa de um ano no Brasil é conhecida como o piso para o juro do crédito bancário. Com a alta dessa taxa, os bancos têm menos incentivo para reduzir também os custos dos empréstimos para empresas e consumidores, diminuindo os efeitos da redução da taxa básica na economia.

Além disso, ela serve de referência para o cálculo do chamado juro real, que também sinaliza a efetividade do afrouxamento monetário – quando os investidores acreditam que o BC terá êxito no ciclo de corte de juros, a taxa de um ano recua. A taxa de juro real chegou ontem ao patamar de 4,5%, depois de atingir o piso de 3,93% no fim de novembro.

O movimento de alta dos juros contou com a ajuda de grandes players que acentuaram o movimento de correção depois do Relatório de Inflação. Mas o ajuste segue os fundamentos, já que os BC mostrou preocupação com a inflação no fim de 2012 e dados da economia americana têm mostrado uma recuperação acima do esperado da atividade nos Estados Unidos. Também foram reduzidas as apostas em um cenário de ruptura na zona do euro.

Mas há quem espere uma reversão nesse processo. Em relatório para clientes, o Bank of America Merrill Lynch acredita que o Relatório de Inflação é, sim, consistente com mais três cortes de 0,5 ponto percentual da Selic, para 9,5% ao ano. “Apenas para relembrar, o relatório anterior também passou a impressão de que não havia muito espaço para cortes de juros”, diz a análise do banco. Na avaliação da instituição, a variável chave ainda é o cenário externo.

Um operador de mercado de juros também acredita que as apostas podem mudar novamente, à medida que outros dados sejam conhecidos. Mas o fato concreto é que o Relatório de Inflação foi um balde de água fria em um mercado que estava posicionado justamente para o contrário, ou seja, para um documento que sinalizasse até um aprofundamento do atual ciclo de cortes de juros.