Pessoa física bate em retirada

A crise internacional e seus reflexos no Índice Bovespa estão fazendo os pequenos investidores baterem em retirada do mercado acionário neste ano. Dia após dia, as pessoas físicas vêm sacando mais dinheiro do que aplicando em ações. Dados da BM&FBovespa mostram que, no acumulado do ano, até o dia 18 de outubro, as pessoas físicas já tiraram R$ 5,440 bilhões, considerando as aplicações menos os resgates. A saída de recursos da pessoa física é a maior entre as seis categorias de investidores acompanhadas pela bolsa. Somente neste mês, o saldo das aplicações desse público em ações está negativo em R$ 407,452 milhões.

A retirada de recursos da pessoa física supera, em larga escala, a saída dos investidores estrangeiros. No ano, o saldo dos aplicadores internacionais também é negativo, mas o volume é bem menor – apenas R$ 972,510 milhões até dia 18. Em outubro, as saídas superam as aplicações em R$ 612,384 milhões.

Crise assusta pequeno aplicador

Este tem sido um ano bem ruim, não só em termos de desempenho do Ibovespa, que acumula queda de 22,07% até ontem, mas em relação às incertezas no mercado. “E, quando há indefinição, a pessoa física fica arredia, assustada, e sai mesmo”, diz Paulo Levy, diretor do home broker da Icap. “Já quando a bolsa está subindo, os pequenos investidores entram em peso em ações.”

Os dados da BM&FBovespa mostram que o pico no número de contas de pessoas físicas, de 630.895, foi atingido em setembro do ano passado. Naquele mês, o Ibovespa registrou alta de 6,58%, aos 69.429 pontos. Isso significa que quem entrou naquele mês e aplicou nas ações da carteira teórica do índice está amargando hoje perda superior a 20%. Em setembro deste ano, o total de contas somava 593.311.

As aplicações olhando para o retrovisor também ficam claras ao observar o comportamento dos pequenos investidores em anos anteriores. Por exemplo, embalada pela alta de 43,65% do Índice Bovespa em 2007, a pessoa física entrou comprando fortemente no ano seguinte. Para se ter ideia, em 2008, o saldo desse público foi positivo em R$ 8,333 bilhões. Só que, naquele ano, depois da forte valorização, veio a crise das hipotecas de alto risco e o Ibovespa fechou em queda de 41,22%.

O investidor pessoa física vive muito de emoção: compra quando o mercado está em alta e vende se está em baixa, quando deveria, na verdade, fazer o inverso, resume Alvaro Bandeira, diretor da Ativa Corretora. “Se ele perde 40% na bolsa, por exemplo, vai ser no mercado acionário que ele vai recuperar esse valor; não adianta tirar o dinheiro e investir em juros que ele vai demorar anos para conseguir reaver o dinheiro”, diz. O executivo reconhece, no entanto, que é difícil convencer o aplicador a comprar mais ações quando há perdas.

O mercado financeiro está muito difícil de ser operado até mesmo para os profissionais mais experientes, mas este não é o momento de sair, afirma Levy, da Icap. E, apesar de todo o trabalho educacional que as corretoras fazem com os pequenos investidores, muitos ainda esperam ganhos rápidos. “Os menos experientes estão saindo, enquanto os que têm mais conhecimento estão atuando hoje no curto prazo”, diz.

Não por acaso, diante da volatilidade da bolsa, com fortes baixas e altas num curto espaço de tempo, as corretoras vêm buscando alternativas para atrair novos clientes, ou mesmo para manter os atuais. A saída para muitas delas tem sido oferecer operações mais sofisticadas, com potencial de retorno no curto prazo.

O investidor ainda não suporta volatilidade para baixo, só para cima, afirma Fernando Camargo, sócio da Orbe Investimentos. “Quando o preço das ações cai, cria-se uma oportunidade para comprar mais, mas a desvalorização acaba sendo um gatilho para a pessoa sair de bolsa”, diz.

Mesmo com os resgates, é possível dizer que houve uma evolução no comportamento do investidor, pois, proporcionalmente, a saída é menor do que a verificada em 2002, quando a bolsa sofreu por conta dos temores com a eleição de Lula, ressalta Aquiles Mosca, estrategista de investimentos pessoais da Santander Asset Management. Em 2002, por exemplo, 10% dos aplicadores pessoa física deixaram a bolsa, enquanto neste ano saíram 7%.

A dúvida, algo extremamente comum em momentos de forte oscilação, deixa os aplicador muito inseguro. E, aí, ele não sabe muito como reagir e, na dúvida, resgata os recursos, conta o sócio da Orbe. “O investidor vê nos jornais a crise, conversa com amigos e, como se fala mais mal que bem nesses momentos, ele fica indeciso e acaba resgatando”, diz Camargo.

O temor das pessoas físicas com o mercado acionário acaba trazendo impacto também para os institucionais. Nesse grupo estão fundações, seguradoras e fundos de investimento. Quando o investidor saca de suas aplicações, o gestor precisa vender os papéis para honrar os resgates. Os institucionais já retiraram R$ 1,439 bilhão no acumulado do ano e, no mês, o saldo está negativo em R$ 60,183 milhões até o dia 18.

Outro movimento bastante comum neste ano tem sido o resgate dos recursos de fundos de investimento para se proteger com a compra de um imóvel. “Com isso, o investidor resgata de um fundo de ações, por exemplo, cujos ativos estão baratos, para comprar o que está caro”, diz Camargo, da Orbe.

Os ativos reais, como os imóveis, por exemplo, ganham um apelo gigantesco em momentos de incerteza. “As pessoas têm a tendência de procurar um retorno seguro, qualquer que seja, do que suportar a possibilidade de perda”, afirma Ricardo Torres, professor de finanças da BBS Business School. A forte captação em CDBs, de R$ 81,526 bilhões no ano até o dia 11, também mostra que uma parte dos recursos que saíram de ações podem ter ido para esse tipo de investimento. Os fundos, por sua vez, registram ingresso de R$ 75,950 bilhões até o dia 14, enquanto a caderneta de poupança capta R$ 10,123 no ano até o dia 14.

Apesar de a saída de recursos da pessoa física ser alta, o movimento é irrelevante no que se refere à formação de preços dos papéis, diz Camargo, sócio da Orbe Investimentos. “O mercado [no que se refere à liquidez] continua sendo feito pelo investidor estrangeiro”, afirma.

Com a queda da taxa de juros e se a situação lá fora se acalmar, os investidores devem voltar, avalia Levy, da Icap. “Estamos ganhando fatia de mercado, mas esse é um bolo que não cresce, o que é ruim.”