Renda variável ainda sofre com resistências

Os fundos de investimento de previdência privada aberta acumulam captação líquida, ou seja, a diferença entre aportes e retiradas, de R$ 5,766 bilhões no ano, até a última sexta-feira. Do total, o único segmento a apresentar captação positiva é o de renda fixa, com R$ 6,659 bilhões. Já o restante, composto por fundos balanceados, multimercados e de ações, possuem maior volume de saídas. Segundo especialistas entrevistados pelo DCI, a tendência permanece de investimentos em ramos de menor risco diante da desaceleração da economia. No entanto, a retomada da bolsa de valores e a queda da Selic podem equilibrar este cenário.

Segundo dados consolidados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), os investimentos em fundos de previdência balanceados, com até 15% em renda variável, tiveram captação líquida negativa de R$ 64 milhões. Os que possuem mais aplicações em ações, de 15% a 30% e acima de 30%, obtiveram também captação negativa de R$ 36 milhões e R$ 53 milhões, respectivamente.

As linhas de produtos multimercados apresentaram captação negativa de R$ 4,06 milhões. O mesmo ocorreu em fundos de ações, de R$ 734 milhões.

De acordo com o consultor de previdência da Mercer, Mauro Machado Pereira, o mercado está ativo, principalmente nos planos corporativos entre pequenas e médias empresas, foco da Mercer. Mas o foco na renda fixa ocorre com a desaceleração econômica. “O Brasil foi impactado por um desaquecimento geral da economia e na mesma linha vêm as perdas da renda variável”.

Apesar da maior confiança na rentabilidade de aplicações em títulos públicos ou privados (debêntures e letras), o consultor ressalta que as ações são fundamentais para garantir ganhos no longo prazo. “As empresas começam a entender e a passar para seus funcionários que um rendimento maior no longo prazo aceita riscos no curto prazo”.

No cenário atual, de queda da taxa básica de juros (Selic), atualmente em 9,75% ao ano, e recuperação da BM&F Bovespa, acima dos 60 mil pontos, Pereira enxerga uma tendência de maior migração para os fundos de ações. “Sem dúvida, nesse cenário a renda variável será fundamental”, pontua o consultor em previdência da Mercer.

O superintendente de Previdência Privada da Porto Seguro, Silas Kasahaya, também percebe a maior convergência, no qual o cliente segue a volatilidade do mercado e diversifica a carteira. “Renda fixa ainda é o forte, correspondendo a 80%, mas observamos uma pequena variação porque a bolsa elevou”.

A amostra do maior equilíbrio pode ser observada em um novo produto da Porto Seguro, o Multifundo. O superintendente explica que a partir de pesquisas de mercado e das necessidades dos clientes, a companhia percebeu o desejo de maior flexibilidade em produtos, serviços e aportes. “Antes, só era possível atrelar a previdência a um fundo. Observávamos até pessoas que possuíam três ou quatro produtos para poder colocar um pouco em cada tipo. A partir deste mês de março, o cliente tem o plano multifundo, no qual pode optar por um fundo diferente a cada mês”.

Para Kasahaya, a volatilidade do mercado possibilita a diversificação dos investimentos . “Num cenário de redução de juros, a tendência é dos investimentos perderem a força na renda fixa. É um caminho sem volta”.

Segundo dados da Anbima, até a última sexta-feira, a rentabilidade em fundos de investimento em títulos públicos e privados foi de 2,72% no ano. Nos balanceados de até 15%, entre 15% e 30% e acima de 30% em ações, os ganhos foram de 3,01%, 4,55% e 8,28%, respectivamente. Já no multimercado a rentabilidade foi de 4,58% e em fundos somente de ações ficou em 15,61%.