Rigor é mantido mesmo com corte da Selic

Nem mesmo o inesperado corte da taxa Selic promovido pelo Comitê de Política Monetária (Copom) há duas semanas parece amenizar a cautela dos bancos na concessão empréstimos e financiamentos. Tanto que, até agora, os bancos não repassaram o corte para o consumidor – à exceção do Bradesco e da Caixa Econômica Federal (CEF). Para tentar contornar a alta da inadimplência, desde o início do segundo semestre os bancos têm se mostrado mais “seletivos” e dessa forma devem continuar agindo, segundo executivos ouvidos pelo Valor.

Embora o panorama esteja longe de ser catastrófico, o aumento da inadimplência combinado a pressões inflacionárias têm contribuído para redobrar a cautela das instituições financeiras, que estão mais rigorosas na liberação de crédito tanto para pessoas físicas como para micro, pequenas e médias empresas. “O cenário de menor consumo no mundo pode, sim, afetar o Brasil”, afirma Rogério Calderón, diretor de controladoria do Itaú Unibanco. “No caso de pequenas e médias empresas, isso se traduz em menos capitalização e reserva de caixa.”

O Itaú Unibanco foi uma das primeiras instituições financeiras a chamar atenção para a tendência de deterioração da qualidade de crédito no sistema, ainda no primeiro trimestre, por ocasião do anúncio de resultados de 2010. Mais à frente, o mercado pôde verificar que foi também um dos bancos que mais sofreram com o aumento do calote.

Os efeitos colaterais da agressiva estratégia de expansão da carteira de crédito adotada pelo Itaú Unibanco estão registrados no resultado do segundo trimestre. As despesas com provisões para devedores cresceram 27% em relação ao segundo trimestre de 2010, alcançando R$ 5,1 bilhões. As receitas com operações de crédito subiram, no mesmo período, 11,8%, para R$ 14,3 bilhões.

Para Calderón, os impactos do aumento de inadimplência no resultado do banco deverão ser sentidos até o terceiro trimestre. Enquanto isso, o banco reforça as exigências para aprovação de crédito. No segmento de pessoas físicas, o crédito direto ao consumidor (CDC) é uma das modalidades mais atingidas. “Se a cada 100 pedidos, 60 eram aprovados, essa proporção passou para 40”, afirma Calderón. Em compensação, o banco tem procurado ainda dar prioridade a modalidades mais seguras, como o financiamento imobiliário.

No segmento de pessoa jurídica, a quantidade de financiamentos para micro e pequenas empresas liberada apenas com aval vem caindo. “E estamos aumentando as operações de financiamento para aquisição de máquinas, que têm como garantia a alienação fiduciária do próprio bem”, completa Calderón.

O Itaú Unibanco não chegou a reduzir a estimativa de crescimento das operações de crédito em 2011, de 16% a 20%, mas outros bancos já começam a refazer seus cálculos. As projeções de crescimento da carteira de crédito do Banco do Brasil (BB) foram revisadas após os resultados do segundo trimestre para 16% a 21% na pessoa física (ante previsão inicial de 19% a 23%) e para 16% a 19% na pessoa jurídica (ante intervalo estimado anteriormente de 17% a 20%).

O BB está atento ao comportamento de inadimplência no segmento de pessoas físicas com renda inferior a R$ 3 mil e vem endurecendo as regras para novos clientes. No chamado crédito massificado (linhas de crédito pessoal e ao consumo), por exemplo, diminuiu os limites de operação.

Bancos de pequeno e médio portes também começam a se mostrar mais seletivos nas concessões para pessoas físicas, informa Renato Oliva, presidente da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), que reúne representantes do setor. “Para o consumidor garantir um empréstimo, já não é mais suficiente ter o nome limpo, fora dos cadastros negativos”, diz. “Os bancos estão mais preocupados em saber onde essa pessoa trabalha e quanto do empréstimo poderá comprometer a renda.”

A mesma redução de prazo vista nos financiamentos a veículos a partir de dezembro do ano passado, reflexo da maior exigência de capital estipulada pelo BC para empréstimos de longo prazo, deverá se repetir em outras linhas, na opinião de Oliva. “O crédito ao consumo, por exemplo, mesmo que usado a para aquisição de bens de maior valor, como eletrodomésticos e material de construção, terá prazo máximo de 24 meses”, diz. Hoje, o número de parcelas pode chegar a 36. “Mas já começo a ver um movimento de redução”, observa.

A Caixa Econômica tem monitorado de perto a evolução dos dados de renda e emprego, mas o vice-presidente de finanças do banco, Marcio Percival, diz que a inadimplência da carteira está, por enquanto, sob controle. Ele pondera que os créditos imobiliário e consignado, menos arriscados, compõem cerca de 70% da carteira do banco estatal.