Seguradora europeia aposta em proteção contra calotes

Com o cenário econômico mundial instável provocado por crise na Europa, com redução do ritmo de crescimento do Brasil e alta da inflação, as empresas necessitam proteger seus ativos para manter o faturamento e evitar prejuízos. Nesse contexto, o grupo espanhol Cesce aposta na ascensão do seguro de crédito como uma proteção à inadimplência. No mercado nacional, a Cesce Brasil possui US$ 17 bilhões de exposição a risco e espera crescer 30% este ano.

O diretor internacional do grupo Cesce, Manuel Alves, revela que entre 30% e 40% dos ativos de uma empresa está nas mãos de devedores. Para ilustrar a importância, o diretor menciona a projeção do Fundo Monetário Internacional (FMI) de alta de 25% da inadimplência na América Latina em 2012, com possibilidade de dobrar, para 50%, como efeito da redução drástica do crescimento econômico, aumento de juros e redução do crédito. “Em um cenário pessimista, com aumento da inadimplência, o seguro de crédito pode ter um crescimento significativo, porque é mais necessário. Achamos que o mercado brasileiro tem potencial.”

O gerente de indicadores de mercado da Serasa Experian, Luís Rabi, confirma a projeção para o Brasil. “Já aumenta a inadimplência. Somente em pessoa física houve elevação de 23% na comparação com setembro de 2010. Em pessoa jurídica, a taxa continua a subir, com 26% de crescimento em setembro de 2011.” Rabi explica, inclusive, que a perspectiva para os próximos seis meses é de contínuo crescimento dos índices entre as empresas. “Mas entre os consumidores começa a cair, desde que não haja uma piora na economia ou paralisação do crédito.”

Destinada a operações entre empresas, a apólice do seguro de crédito tem como objetivo assegurar o valor total ou parcial contra risco de calote, podendo ser contratado para vendas domésticas ou exportações. “A principal vantagem [do seguro de crédito] está em transferir esses riscos para uma seguradora. Em caso de não-pagamento, pode-se ser ressarcido das perdas. A empresa que tem o seguro tem mais condições de sobreviver em cenário de crise”, explica o diretor do grupo Cesce, Manuel Alves.

Na Europa, essa modalidade representa 6% do Produto Interno Bruto (PIB), sendo que somente na Espanha o mercado movimenta cerca de 800 milhões de euros por ano, revela Alves. No Brasil, a participação no PIB chega a 0,4%, com total em prêmios de R$ 133 milhões no mercado interno e de R$ 11 milhões na modalidade para exportação, dados até setembro da Superintendência de Seguros Privados (Susep).

Segundo Manuel Alves, o setor na Europa está consolidado e desenvolvido. “A cultura seguradora de crédito no Brasil não existe como em outros mercados. Mas todos os operadores mundiais estão aqui e veem seu potencial.”

Controlada pelo governo espanhol, com 51%, a Cesce possui 15% das ações com o Santander e 15% com o BBVA. Em 2010, o faturamento chegou a 400 milhões de euros na soma das unidades de Espanha, França, Portugal, Brasil e seis outros países da América Latina.

Seguradoras na Europa

No que se refere à exposição da seguradora ao risco dos problemas das dívidas soberanas da Europa, local onde possui maior participação, o diretor internacional é enfático ao dizer que mantém as operações normalmente, mas com alterações contratuais de acordo com o risco de cada empresa. “A crise da dívida soberana tem efeito nas empresas. Mas no caso da Grécia, por exemplo, a economia continua a funcionar. Então nós continuamos a operar, mas com taxas de acordo com o nível de risco.”

Alves revela, entretanto, que as concorrentes no seguro de crédito na Europa classificam as companhias uniformemente, com ajuste geral nos preços. “No momento em que as empresas mais precisam, os concorrentes saem. Nós achamos esse comportamento errado.”

Como forma de continuar a operar e manter a sinistralidade sob controle, a seguradora classifica as companhias sob sete tipos de rating. A avaliação é feita com balanço de resultados, análise interna, perspectiva de evolução, capacidade de pagamento etc. “Em momentos de crise, há uma deslocalização de classe de risco de melhor para pior. Quem pagava mais barato pode pagar mais caro.”

Durante a crise do subprime, em 2008, as seguradoras sofreram consequências da crise junto com os bancos, pois estavam alavancadas no mercado de hipotecas. Ao ser questionado se a situação pode se repetir, já que as instituições financeiras europeias enfrentam problemas financeiros, o diretor internacional diz que sim. “As seguradoras têm participação em dívidas soberanas, mas os bancos têm exposição maior a este risco. Devido à regulamentação rígida da Europa e a regras claras de como investir, as seguradoras terão reflexo significativo, mas não com a mesma expressão dos bancos”, conclui Alves.